Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Este blog começa a ser como um daqueles parentes que só vemos de ano a ano (precisamente pela altura do Natal), mas não é por isso que vou acabar com ele. Também não matamos o nosso tio-avô lá porque só o vemos na Consoada.

 

Assim, e passado quase um ano desde o último post, venho fazer o meu rescaldo de 2012. Com atraso, bem sei, mas não tenho culpa que a época de Natal seja tão má para os guionistas como para os pasteleiros: também fazemos horas extra. E o pior é que não é a pincelar bolo-rei. 

 

Mas não queria deixar passar em claro um ano tão importante como 2012. Afinal de contas foi o ano em que o meu grande herói, Paco Bandeira, que me tinha feito comprar a cassete da banda sonora da Roseira Brava, mostrou que a ternura dos 40 não existe coisa nenhuma! O melhor é aproveitar a ternura enquanto tenho 27, que depois acaba-se e o tratamento é de caçadeira para cima.

 

2012 foi o ano em que fiquei a conhecer Helsínquia, Oslo, Estocolmo, Copenhaga e Madrid. Ah, e Ofir também (muito bonito). Foi o ano em que mais kilómetros de páginas escrevi (devia usar um tacómetro, com os camionistas). Foi o ano em que conheci Deus (há quem lhe chame Manuel Luís Goucha). Foi o ano em que aprendi a andar de bicicleta (sem rodinhas!). Foi o ano em que a minha casa deixou de ter uma espécie de catarata do Niagara na sala (bom para atrair turistas, mas chato na rotina diária). Foi o ano em que comecei a acordar antes das seis da manhã para cumprir um daqueles sonhos que nós achamos que são tão altos que nem verbalizamos (até porque coisas altas dão-me vertigens). Foi o ano em que fiz novos amigos (logo eu, que sou tão anti-social). Foi o ano em que aprendi (aprender é uma palavra claramente exagerada) a jogar squash. Ah, e foi o ano em que descobri finalmente onde comprar bons rissóis de camarão. Nunca devemos subvalorizar um bom rissol.

 

2012 ainda não foi o ano em que tive uma apendicite (mas passei uma tarde no hospital a pensar que sim). Ainda não foi o ano em que ganhei o Euromilhões (o facto de não jogar talvez não ajude). Ainda não foi o ano em que voltei aos Estados Unidos. Ainda não foi o ano em que cumpri uma dieta exemplar. Por isso é que inventaram 2013. Ou então vai só ficar tudo na mesma, e vai ser muito bom assim.

 

 

 


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escrito por Joan@ às 20:53
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

O Canal Q fez dois anos dia 29 de Março.

As Produções Fictícias fazem 19 anos dia 1 de Abril.

 

Eu fiz 26 anos dia 3 de Janeiro.

E 5 anos de Produções Fictícias no dia 2 de Fevereiro.

 

Eu detesto números, e sou completamente inapta para contar, somar ou subtrair. Mas às vezes reconheço que estes algarismos dão jeito para nos lembrarem que estamos exactamente onde sempre quisemos estar. E a felicidade que isso traz é inquantificável. (felizmente, porque também sou uma nódoa a quantificar).

 



escrito por Joan@ às 11:46
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Passei este mês a escrever vários balanços do ano, cheios de coisas francamente desinteressantes, como eleições, a morte de ditadores ou a chegada da troika, e uma ou outra ligeiramente mais interessante, como a nuvem de cinzas em nova york (também conhecida como cremação do Carlos Castro) ou a emigração, avant la lettre, da família Abreu-Djaló. Mas o meu 2011 foi marcado por coisas bem mais importantes e que provavelmente mudarão tanto o mundo como o desaparecimento do Bin Laden ou do Kim Jong Il, ou seja, nada.

 

Em Janeiro fiz a "sagrada" escritura da casa, e assim, 15 anos depois, regressei a Caselas, que tinha abandonado no fim da quarta classe. Depois disso houve a compra dos móveis, as mudanças, os barbecues no terraço e mais tarde, porque as boas histórias precisam de algum conflito, a chuva e as infiltrações. Aguardemos por 2012 para saber como termina o filme. Se a casa não ruir é um final feliz.

 

 

Uma das aquisições mais importantes para a casa nova foi, claro, o plasma. Para assegurar as doses de televisão de que o meu sistema sanguíneo precisa. Neste momento acho até pouco rigoroso dizer que vejo muita televisão. Acho que é já a televisão que me vê a mim, porque estou sempre em frente dela. E não me arrependo de nada. Até porque em 2011 tive direito a assistir a coisas como esta: uma senhora no você na tv perdeu a oportunidade de ganhar 10 mil euros por não saber quem escreveu "a relíquia". ficou apenas com 100 por saber quem é a jessica athayde. são estas coisas que me fazem acreditar que o facto de ter ido à escola combinado com visionamento maciço do Goucha me fará rica.

 

Como nem só de ócio vive o Homem, tive de ajudar a fazer alguma televisão também. E gostei particularmente de ver o resultado destes sketches:

 

(Não, Não & Não - Canal Q)
Estado de Graça (RTP1)

Além da televisão podemos sempre contar com alguma imprensa para nos dar alegrias. Não vou fazer o resumo das TVMais, TV7dias e TVGuia que li ao longo do ano, porque é manifestamente impossível, mas deixo-vos a manchete que mais me fez rir em 2011. By Correio da Manhã (o melhor, desde que faleceu prematuramente o 24horas) - "Simão Saborsa abatido no funeral do pai". Sou só eu que imagino dois cadáveres em vez de um?

 

Em 2011 também aprendi muito. Fiquei a saber que a Ponte de Entre-os-Rios de chamava Hintze Ribeiro e não Índice Ribeiro, e descobri que afinal nesta música ninguém diz "katmandu".

 

 

 

 

Mas não pensem que eu não tenho consciência social. 2011 foi sem dúvida o ano das manifestações populares, da insurreição dos precários e indignados. Eu não vou passar ao lado disso. Não vou resumir o ano sem recordar o 12 de Março. Dia que me fica na memória por ter visto uma mulher a empunhar um cartaz a dizer "Quero engravidar!". Alguém devia explicar-lhe que não é ali que se trata disso. Se fosse na Praça Tahrir talvez ainda tivesse sorte. Agora, em Portugal, um país de brandos costumes e com Henrique Sotero preso? Nem pensar.

 

2011 foi também ano de grandes alegrias desportivas - na óptica do adepto, já que na óptica do utilizador, torci um pé, acontecimento que me fez chorar muito mais do que qualquer medida de austeridade. Mas voltando à posição de adepto, que é que como quem diz, a posição sentada no sofá, 2011 foi ano de Villas Boas, de Falcao, de 5 a zero, de apagão, de Liga Europa, Taça de Portugal, barriga cheia. E parece que já foi há tanto, tanto tempo, éramos nós umas crianças e Vitor Pereira estava caladinho num lugar discreto. Mas a maior alegria proporcionada, indirectamente, pelo Porto, foi o relato da SportTV nos festejos do campeonato. Fernando Belluschi entra em ampo com um recém-nascido ao colo e o comentador diz "creio que será um animal!". Priceless. Deu-me quase tanta alegria como aquele golo de calcanhar do Falcao (um dos 5).

 

Em 2011 rendi-me finalmente ao iPhone, no preciso dia em que Steve Jobs morreu. Chego sempre um bocado atrasada às cenas da moda. Mas chegou até mim, bem a tempo, a Bimby, e acho que a nossa relação pode evoluir positivamente em 2012 (tenho que ver o que diz a Maya sobre o assunto). Descobri o meu novo restaurante preferido (o Umai, mas não digam a ninguém), experimentei uma coisa que todos deviam experimentar antes de morrer (não, não me confundam com o Renato Seabra, foi só o brunch da Bica do Sapato). Fui à Madeira antes de descobrirem o buraco colossal, fui a Berlim antes de descobrir quão odiosa é a Merkel, fui a Porto Santo e a Amesterdão. E acho que o que gostei mais ainda foi Viana do Castelo.

 

 

Em 2011 apaixonei-me. Sim. Pela Fanny, cuja mãe queria chamar-lhe "Stephanie" (como a princesa do Mónaco), mas foi travada pela avó que não conseguia dizer o nome. E continuei apaixonada pela pessoa que me oferece a melhor parte dos cornettos - o fim - sem pestanejar. E olhem que é uma pessoa amiga do açúcar.

 

E depois de mais um ano em que trabalhei todos os dias para fazer rir alguém, o vídeo que mais gargalhadas me provocou foi este:

 

O que me leva a concluir que a melhor resolução de ano novo é mudar de profissão. Como não sei fazer mais nada (nem rissóis para fora, nem bolos para dentro), o melhor é ficar-me pelas resoluções da praxe. Deixar de fumar, por exemplo, é uma coisa que cumpro sempre com a maior facilidade. Feliz ano novo!


escrito por Joan@ às 10:52
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Tenho medo de cães. E de gatos. E de hamsters, porquinhos da índia, furões, doninhas, baratas, osgas, lagartos. Tenho medo de peixes de aquário - uma vez uma amiga minha tentou "curar-me" desta fobia por animais e ofereceu-me um aquário com os ditos cujos lá dentro, não demorou mais que 3 dias até eu os doar, tipo "passa a outro e não ao mesmo" - tenho medo doutros peixes, basicamente de todos os que não estejam escalados num pratinho, ladeados por limão e feijão verde. Tenho medo de ferozes tubarões ou de fofos golfinhos. Não faço distinções. Vacas, cavalos, ovelhas, todos me atemorizam. Tenho medo de montanhas russas. De desportos radicais. De agulhas. De todo o tipo de exame médico. Tenho medo de doenças, e acho sempre que vou falecer duma diferente a cada semana. Tenho medo de andar de avião. E de carro, quando vou na condição de passageiro. E por falar nisso, de autocarro também, que aqueles tipos da Carris acham todos que nasceram para ser o Fangio. Helicópetro então nem pensar. Nem motas. Também tenho medo de andar de bicicleta, embora tencione superá-lo um destes dias. E de patins e de skate - esses já desisti de superar, morrerei com eles. Tenho medo de elevadores. Tenho medo de multidões. Tenho medo de espaços fechados. Tenho medo de ladrões (essa entidade abstracta). Tenho medo do mar. Tenho medo de ficar fechada em casas-de-banho, e isso acontece-me demasiadas vezes. Deve ser o meu medo que actua sobre fechaduras, estragando-as para todo o sempre.

 

E a juntar a todos estes medos já identificados e catalogados, há ainda o terível medo do desconhecido.

 

Os destemidos sempre foram admirados, e hoje mais que nunca, quando o vídeo mais visto do YouTube mostra um tipo a quem o medo não assiste, mesmo na hora de espetar a tromba no alcatrão. Ainda assim gosto de acreditar que a falta de inteligência e o medo são inversamente proporcionais. Perceberam, não é? Prefiro ser considerada um pequeno génio incompreendido do que uma grandessíssima mariquinhas. Isto porquê? Porque tenho medo de que me apontem na rua! Não, vá lá, deve ter sido a única fobia de que nasci a salvo - o medo do ridículo. Caso contrário este texto nunca poderia existir.

 

PS - E apesar desta infindável lista (à qual podia juntar mais 480 coisas) conheço pessoas com medos ainda mais estranhos do que eu, nomeadamente: anões e pêssegos. Felizmente estas fobias não pertencem à mesma pessoa, porque vivem-nas com tal intensidade que a visão de um anão com uma lata de melocoton em calda nas mãos podia ser mortífera.


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escrito por Joan@ às 18:29
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Fazer malas. Madeira. Os taxistas do nosso aeroporto ao pé dos madeirenses são uns meninos de colo. 35 euros para chegar ao hotel. Piscina. Bolo do caco. Várias estações do ano no mesmo dia. Barco para Porto Santo. Porto Santo às moscas porque toda a população foi levada a ver o Querido Líder ao Chão da Lagoa. Rally da Madeira. Restaurante Riso, em que tudo leva arroz. Volta à ilha, não em bicicleta mas em carro alugado. Subida com inclinação de 27%. Carro não sobe à primeira. Nem à segunda. Inversão de marcha. Mais voltas à ilha. Casinhas de Santana, espetada em pau de louro, piscinas naturais. Poncha de maracujá. Senhoras e meninas nitidamente vestidas pelas boutiques do Cristiano Ronaldo. Bom sushi no Shu.aka. Casal tuga partilhando táxi connosco para fugir à máfia, e o cabeça de casal a dizer "que a pancha é um veneno, que as pessoas bebem como se fosse sumo e depois ficam com a cabeça à roda". Muitos escuteiros ou escoteiros - vá-se lá distingui-los - em todos os aeroportos e aviões. Não se pode proibir este fagelo?

 

Desfazer malas. Fazer malas.

 

O Grove. Ou "a estranha mania dos espanhóis juntarem o artigo ao nome da terra". Pinchos. Calamares. Praia em que a água se assemelha a uma cuvete de gelo gigantesca. Dores nos ossos. Praia bonita, ainda assim. A incompreensão de ainda haver hoteis que cultivam o cheiro a mofo. Aquilo deve dar trabalho, é preciso método para deixar sempre as janelas fechadas, permitindo que o aroma das alcatifas flua. Dono de café mal educado e pouco dado a receber clientes. Pedido de livro de reclamação. Pedido negado. Chamar polícia de O Grove. Bonitas fardas. Reclamação feita, procurámos outros sítios para mostrar o espírito contestatário dos portugueses. Sem sucesso. Os outros galegos insistiram em tratar-nos com amabilidade. Não se percebe. Mojito tostado.

 

Praias de Moledo e do Cabedelo. A gente do Norte só pode ser feita doutro material. Para os lisboetas a praia é sinónimo de descansar, andar de gaivota, comer gelados. Para eles é sinónimo de lutar contra o vento, entrar num mar de zero graus com bandeira vermelha, comer areia, evitar levar com um kitesurfer em cima. Digamos que mais do que uma tarde de lazer parece uma prova dos Gladiadiores Americanos.

 

Viana do Castelo.

E estes versos a ganhar mais sentido do que nunca:

Se o meu sangue náo me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia.

 

O sangue não me enganou. Uma das terras mais bonitas de Portugal. Pousada O Laranjeira, a mais pitoresca que já vi, e estrategicamente localizada em frente à confeitaria Natário, muito elogiada por Jorge Amado. Parece que a especialidade são as bolas de berlim. Tivemos que fazer o sacrifício de provar. Descobrimos que o Jorge Amado era um vendido, ou tinha um grave problema de gula. Apanhámos vários textos elogiosos sobre outros estabelecimentos de restauração. Devia ser amigo de comer à pala. Percebo agora o Gabriela "cravo e canela"! Só estranho não ser "Dona Flor e os seus dois pudins". Santa Luzia - quero uma casa com uma vista assim. Restaurante O Camelo, overdose de rojões. Ponte de Lima. Overdose de cabrito. Instala-se a dúvida: como é que o Minho não tem taxa de obesidade superior à dos EUA? Rio Lima - uma semana depois vimos notícias sobre a qualidade (ou falta dela) da água. Tarde demais. Valeu a pena o mergulho, mesmo que venha a ter erupções cutâneas na testa. Festa de Santoinho. A melhor festa de sempre. Esqueçam o Carnaval da Bahia, e até mesmo o de Torres, esqueçam os Santos Populares, esqueçam até o Natal. Nem o nascimento de Jesus/louca descida do Pai Natal pela chaminé (escolher a opção preferida) me enchem de quentinho como a maior festa de emigrantes do Norte. Uma romaria de lusodescendentes iguais ao Cristiano Ronaldo mas que "ne parlam pas portugais", trazidos pelos seus pais com fartas bigodaças e que trabalham em Lausanne. A maior concentração mundial de camisolas pretas com letras douradas a dizer "orgulho português". E nós estivemos lá. A comer broa, sardinhas, frango assado e... mais importante... a beber champarrião. Diz-nos a Wikipedia que é vinho verde com cerveja e açúcar. Nós bem sentimos qualquer coisa estranha no estômago no dia seguinte...! Actuação de ranchos folclóricos e de grupo musical com repertório de Tony Carreira. Em cada emigrante um amigo.

 

Póvoa do Lanhoso. Bungalow de madeira num parque aventura (porquê, meu Deus, porquê? Porque me meto nestas provações?). Perseguidos por uma vaca. Sobrevivemos. Chega de adrenalina para mim, obrigadinha.. 43 graus. Albufeira da Caniçada. Os nossos amigos emigrantes outra vez. À luz do dia são piores. Sobretudo porque têm todos o símbolo da Federação Portuguesa de Futebol tatuada no peito. Suspeito que acham que aquilo é a bandeira nacional. 

 

Desfazer malas. Fazer malas.

 

Algarve. Arranjar um lugar na areia é mais dificil que resolver um cubo de rubik. Uma pessoa acaba por se render e ficar ao lado dum grupo de adolescentes de Vila Nova de Gaia, como sempre tivessemos sido amigos e tivessemos muito mais afinidades para além da escolha da praia da Falésia. Mas tudo vale a pena (mesmo com almas pequenas) quando a temperatura da água ronda os 24 graus. Repor os niveis de ómega 3 com peixe cru no Tako, que o último sushi já ia longe (estranhamente no Minho não há uma grande comunidade japonesa), e acabar sem dó nem piedade com o dolce fareniente, com regresso a Lisboa e escala em Tróia, só para o desmame não ser abrupto e não corrermos o risco de danos cerebrais (mais ainda dos que a leitura exclusiva de revistas cor-de-rosa já causa).

 

Desfazer malas... ao fim de muitos dias com elas a olharem para mim.

 

Agora... sopas e descanso, o que não deixa de ser irónico depois de três semanas em que era suposto descansar. A minha vida de trabalho é muito menos exigente que isto! Que bom estar de volta.

 

(*) O título deste post é uma passagem de uma obra da música ligeira portuguesa, da qual infelizmente nunca consegui encontra registo, mas que nunca esqueci!


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escrito por Joan@ às 18:20
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Domingo, 24 de Julho de 2011

Parece que agora a 26 de Julho comemora-se o Dia dos Avós. Se discordo? Claro que discordo. Acho que ninguém merece ter um "dia internacional". Nem as mães, nem as mulheres, nem os pais, nem as crianças. Porque a criação de um dia internacional de seja o que for abre sempre uma nova oportunidade para se imprimirem milhares de postais foleiros com ursinhos a segurar ramos de rosas, e esse desperdício de papel faz um mal incrível ao ambiente. Sobretudo ao ambiente circundante a montras de papelarias. Acho que é um ultraje os avós terem um dia. Os avós merecem ter um mês inteiro. Mas Julho é melhor não, que faz demasiado calor para quem é avô... é melhor um Dezembro, em que o calor passa a chamar-se quentinho e sabe bem, debaixo das mantas onde se assiste àquele programa muito jeitoso no primeiro canal (os avós são os únicos para quem existe primeiro canal e não RTP). Aliás, acho que deviamos ir mais longe e dar aos avós um ano inteiro. Vários anos inteiros. Todos os anos que tivermos em comum com eles. Acho que é a maior das injustiças do mundo (maior do que termos perdido com a França por causa duma mãozinha inocente do Abel Xavier): termos direito a tão pouco tempo de vida em simultâneo com os avós. Para quê este desencontro? Os avós, que normalmente acreditam sempre em Deus, deviam perguntar-lhe como é que calculou isto tão mal... Avô e neto é a aliança mais antiga e frutífera de sempre. Muito melhor que aquela que supostamente une Portugal e Inglaterra. Os avós têm tudo para ensinar, muito mais tempo e paciência que os pais para o fazer, e sobretudo, métodos de ensino muito mais recomendáveis. Com cada aprendizagem, e sem pagar mais por isso, vem sempre uma fatia de salame de chocolate ou um pão com manteiga e compota.

"Velhos são os trapos", diz a minha avó. E tem razão. A minha avó é mais nova do que eu. Em todo o lado, menos no bilhete de identidade, infelizmente. A minha avó deita-se tarde e a más horas, acorda ao meio-dia, raramente tem fome para almoçar mas tem sempre espaço para uma guloseima, a minha avó ficou de me dar um livro de receitas e entregou-mo com umas quantas por preencher, como os miúdos que a meio da tarde se fartam de fazer o TPC e têm esperança que a "stora" não note, a minha avó acha que está velhíssima por já não conseguir ler sem óculos (eu acho que leio com óculos desde que ela me levava ao cinema para vermos a Pocahontas). A minha avó é uma adolescente que por azar tem 86 anos.

"A idade é um posto" - outro clássico dos "adágios sobre a terceira idade" (deixo de fora desta gama os iogurtes Adágio com propriedades  preventivas da osteoporose). E só tenho pena que o meu avô não tenha tido oportunidade de ocupar durante mais anos esse posto que era seu por direito. No dia do funeral do meu avô, tinha eu uns doze anos, tive uma alucinação. Uma miragem. Sem recurso a qualquer tipo de droga. Na altura - como hoje - o único estupefacciente que tomava era Zirtec, para as alergias. No dia do funeral, vi uma pessoa igual ao meu avô, no principal jardim de Almeirim. E chamei a minha mãe para ver, apontei, insisti que era ele. Aproximei-me ainda um pouco. Não era. Provavelmente não era sequer parecido. Mas eu queria tanto que fosse o meu avô, que tivesse sido tudo um grande e desagradável engano, que cancelássemos o enterro e fossemos todos almoçar uma sopinha da pedra, que durante escassos segundos tive aquela alegria de poder vê-lo uma última vez.

Eu gosto de acreditar no impossível. Seja por um segundo ou por anos a fio. Eu acredito que a minha avó é imortal. Que um Manoel de Oliveira não lhe chega aos calcanhares. Ele viverá até uns frondosos 110 anos, a minha avó vai durar mais que toda a família. E quando escrevo isto apercebo-me a cada tecla do pouco sentido que faz esta previsão. Mas sou como um sportinguista que diz esperançado que para o ano é que é, "vamos ganhar a liga dos campeões" ("mesmo sem estarmos apurados"), e só admitirei que estou errada no dia em que o Universo me provar o contrário. Enquanto a prova não vem, temos a felicidade de não virmos com prazo de validade e dessa incerteza nos dotar daquela urgência de estarmos juntos. De almoçar em família todos os domingos. De recordar tempos antigos em fotografias, enquanto as figuras que nelas habitam ainda cá estão para contar o que se passou por trás da objectiva nesse dia. De planear tempos futuros.

Por azar, ou por sorte, ou por acaso ou por qualquer outra coisa, tive avós praticamente inexistentes de um dos lados da família, mas para compensar tive direito a duas avós de um lado só. Uma tia-avó, que de tia tem muito pouco e de avó tem todas as partes boas e nenhuma das más. Não traz incluido o pack pessimismo, dor ciática e "no meu tempo é que era". Porque este ainda é, felizmente, o tempo dela. E aproveita-o melhor que todos nós, seja em viagens constantes pelo mundo ou em aulas de tai-chi.

Gostar de criancinhas é fácil. Num bebé tudo é amoroso, até o ranho (não partilho desta opinião, mas acredito que sou uma minoria). Mas quando os anos passam e chega a altura de se calhar ter de usar fraldas novamente, isso já não tem nada de adorável e ninguém quer estar por perto. Não sou especial fã de bebés. São muito engraçados e tal, mas sabemos lá o que vai sair dali. Podemos estar perante um ditador. Ou um novo Quim Bé. Ou um futuro praticante de violência doméstica. Um bebé ainda não fez nada para merecer o meu respeito (ok, bolçou depois de almoço, o que é assinalável para uma criatura tão pequena), ainda não tem provas dadas. Gostamos dele simplesmente porque existe. O que, convenhamos, é pouco. Um avô - ou avó - é um livro todo preenchido. De cima a baixo, incluindo as margens e os rodapés. Com tudo o que há de bom, e tudo o que aconteceu de mau. Gostamos deles "por causa disto" ou "apesar daquilo".

Deviamos gostar mais dos nossos avós. E dos avós dos outros. E dos avós que nunca tiveram netos, para passarem da teoria à prática.  Temos de gostar muito mais. Todos os dias, todos os meses, todos os anos. Mesmo quando eles já tiverem provado que não são imortais e nós tivermos experimentado o mesmo sentimento de desilusão - e dores no corpo todo - do primeiro homem que tentou voar com umas asinhas artesanais e bateu contra uma árvore.

 


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escrito por Joan@ às 16:02
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Ao que parece a namorada do (falecido) Angélico era Anita Costa.

Ao que parece ela tinha um cão, oferecido pelo Angélico, chamado Angie, que morreu também uns dias antes (coincidência macabra que faz qualquer boa revista cor-de-rosa esfregar as mãozinhas).

Feito este esclarecimento prévio, vamos ao que interessa.

Anita Costa escreve no seu Facebook, com o seu inglês (quem dá o que pode a mais não é obrigado): "Now my two angies are together. take care of each other. I love you so much, I always have and I always will".

Senhor da TV 7 Dias faz o favor de traduzir, porque há muitos leitores que não dominam o idioma: "agora os meus anjos estão juntos. cuidem-se bem um com o outro. eu amo-vos muito. eu sempre vos tive, eu sempre irei ter-vos".

Senhor da TV 7 Dias não dominha o idioma. Português. E já devia saber que não se pode confiar no Google Translator.


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escrito por Joan@ às 18:55
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Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

São uma e a mesma pessoa.

 

 

 

Mas o boneco (maneira carinhosa pela qual trato James Rodriguez) joga melhor. Talvez também ajude o facto do campo não ser inclinado (ao contrário do que alguns queixosos dizem).


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escrito por Joan@ às 18:48
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Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Estou prestes a começar a escrever a próxima crónica para a revista do The Place e e lembrei-me (que é como quem diz "resolvi adiar a angústia da página em branco") de publicar aqui a do último trimestre, já bafienta e desactualizada, que são sempre bons atributos para uma crónica.

 

Lyonce, Mourinho, Tiago e Dakar (qual destes não é nome de pessoa?)

 

Há quem diga que o futebol são 11 homens de cada lado a correr atrás duma bola. Nada mais redutor e, diria mesmo, falso! Futebol é tudo o resto: os árbitros, os adeptos, as amantes dos jogadores, as mulheres legítimas dos jogadores e os nomes que elas dão às crianças dos jogadores. Pois é, Yannick Djaló foi pai, aoo que parece, de uma menina. Mas o nome Lyonce Viiktórya deixa dúvidas. Fico a pensar “será um pássaro? Será um avião? Será uma nave espacial? Será uma espécie endémica?”.

Enquanto isto, na Europa civilizada atribuem-se prémios. José Mourinho arrecadou a Bola de Ouro e, simultaneamente, a admiração de milhares de compatriotas, por ter cometido a proeza de... falar em português. É natural o espanto, realmente há muitos anos que não o ouvíamos expressar-se na língua de Camões. Ouvimo-lo falar uma espécie de inglês, uma espécie de italiano e agora uma espécie de espanhol. Sempre com accent setubalense. José Mourinho é um poliglota especial: sabe dizer choco frito em todas as línguas do Mundo. The Special One, em termos linguísticos, safava-se perfeitamente se vivesse na Torre de Babel. Só ia haver problemas nas reuniões de condomínio. É que, seja em que idioma for, já se viu que Mourinho não gosta que lhe pisem os calos. Agora o próximo passo é conseguir pôr o Jorge Jesus falar português. As dificuldades de expressão do treinador são tantas que no último jogo do Benfica com o Nacional, Jesus precisou de recorrer à linguagem gestual para expressar a sua admiração por Luís Alberto. Expressou-a em cheio no estômago.

Ficámos recentemente a saber que Tiago (ainda se lembram dele?) renunciou à selecção nacional. Esta tradição que se instalou entre os jogadores portugueses é, quanto a mim, um sinal de boa educação. Eles estão todos a fazer cerimónia. Sabem quando nos oferecem uma coisa muito boa e nós, educadamente, recusamos? Estendem-nos aquela última fatia de toucinho do céu e nós fingimos que não queremos. Ao contrário dos garganeiros do anúncio do Mon Cherie, que se digladiam pelo último bombom. No futebol, como na vida, é assim. Há os Tiagos e os Simões que preferem deixar a última fatia de descrédito com o equipamento das quinas para os outros, e há os gulosos, tipo Fábio Coentrão ou Eduardo, que até se oferecem para ser apanha-bolas se for caso disso. Uns mal-educados é o que é. No meio é que está a virtude, ou neste caso o Cristiano Ronaldo, que aceita ir mas não joga. No fundo, recuperando a metáfora gastronómica, Ronaldo aceita o toucinho do céu mas mete no bolso e leva para casa. E acaba por ser a sua mãe Dolores a deitá-la fora, quando vai pôr o casaco a lavar na máquina. Perde-se um doce conventual, neste caso, e perdem-se jogos para a qualificação, no outro.

Para superar a crise de confiança nacional devíamos dar mais atenção a outros desportos. Por que não festejar efusivamente a melhor classificação de sempre dum português no Dakar? Mesmo que nunca tenhamos ouvido falar de Hélder Rodrigues e pensássemos, até há pouco tempo, que Dakar era um stand de automóveis ali ao pé da João XXI. Aliás, a ignorância nunca foi um entrave para as comemorações lusas. Ou acham mesmo que alguém sabe quem são os Capitães de Abril, quando se fica em casa a aproveitar o feriado? Sei de muito boa gente que pensa que eram jogadores do Benfica, na época em que o Sporting tinha os Cinco Violinos...

 

 

(A ilustração é do Ricardo Galvão). 

 

Agora sim, vou só passar uma roupa a ferro (aprender primeiro, que não sei bem como se faz), tomar um café (mesmo não gostando), fazer um zapping, apreciar a paisagem no terraço, ler os jornais do dia (só as "gordas", que é como quem diz "as notícias sobre o Peso Pesado), ler com pormenor os últimos 320 posts do Facebook e depois então escrever a próxima crónica.



escrito por Joan@ às 11:41
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Quando estamos doentes, por mais insignificante que seja a doença (e felizmente não sou diplomada para falar de doenças sérias e graves, e espero nunca conseguir tirar essa pós-graduação), de repente as coisas mais enfadonhas do mundo tornam-se nos nossos desejos mais profundos. Noutro dia, a caminho duma consulta, olhava pela janela e tinha inveja genuína de todas as coisas absolutamente banais que as pessoas faziam na rua. De repente levar o carro à revisão pareceu-me um programa espectacular (mesmo que fosse diagnosticada uma doença gravíssima ao meu automóvel, antes ele que eu), estar na mercearia a escolher as melhores pêras rocha, ou até mesmo trabalhar na própria mercearia (tendo 80 anos e escassez de dentes, como a senhora), conduzir um táxi (e ter bigode), acartar com bilhas de gás às costas ou distribuir a Dica da Semana, tudo isso me pareciam alternativas espectaculares. Todas aquelas vidas me pareciam muito melhores que a minha, naquele dia, àquela hora. Felizmente estava sem tempo para trocar de personalidade com aquelas pessoas. Foi o melhor que fiz, porque agora que termina (acho eu) o calvário de exames e de ingestão de sopa de cenoura e frutinha cozida, parecia-me pouco razoável a troca (se bem que a distribuição da Dica da Semana ainda faz o meu coração balançar... é que parecendo que não, é uma profissão que permite conhecer os cozinhados do chefe Hernani Ermida antes de toda a gente, e saber se nessa semana o Lidl tem máquinas de pão em promoção). A conclusão a tirar disto (além de que ingestão de pêras cozidas a longo prazo pode provocar delírio),  é que quando estamos saudáveis sonhamos alcançar as coisas mais absurdas: conseguir os mínimos para os jogos olímpicos de Londres, passar um mês nas Bahamas, ganhar o Euromilhões, ir jantar ao melhor restaurante do mundo... Ao mínimo sinal de doença, tudo aquilo a que aspiramos é banal, e de repente uma tosta mista afigura-se-nos como o único prato gourmet da humanidade. 

 


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escrito por Joan@ às 16:38
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