Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

No dia 2 de Janeiro a minha avó faz anos. Para nós, são 87. Para ela são "três para os 90".

 

Ela vem sempre antes de mim. Nasceu um dia (e sessenta e tal anos) antes de mim. Gosto sempre mais do dia 2 do que do 3, porque a minha festa ainda está para vir. Estamos só a dar o mote. Ainda não há o cheiro a velas apagadas por um ano inteiro, ainda não há os convidados a saírem quando nos apetecia conversar mais, ainda não há o resto do bolo , desfeito em migalhas, que vai acabar no lixo depois de um exílio no friogrífico.

Andamos ao contrário mas cruzamo-nos sempre. E paramos para tomar "o chá das cinco". Uma tradição que prometo não deixar cair em desuso. Porque nalgum dia do ano tem que se dar uso ao serviço de chá inglês, e ao açucareiro de "casquinha" (seja lá o que for esse material!).

Os meus pais sempre me disseram para ter cuidado com as companhias, com os amigos mais velhos, mas o que hei-de fazer? A minha melhor amiga tem mesmo mais 63 anos que eu. E está sempre lá para me dizer que tudo o que eu faço é bem feito. Porque há pessoas das quais não queremos a verdade rigorosa e científica, mas apenas o amor incondicional e tendencioso. Está sempre lá para se rir de todas as minhas piadas, com vontade genuína. Ouvia o programa de rádio ao domingo de manhã, vê o programa de televisão às nove da noite, mesmo quando tem coisas a queimar ao lume, leu de fio a pavio o meu livro sobre adeptos de futebol, perguntando-me a páginas tantas "quem é esta senhora?" perante um boneco do João Vieira Pinto...

Esta minha amiga, ontem, "escangalhou-me" (on her own words) o telemóvel. Tropeçou no fio quando ele estava a carregar, e deu cabo dele (que também já não ia para novo). Depois, ficou muito "ralada" com o sucedido, dizendo todo o tipo de asneiras que fazem parte do seu léxico: "merde treze" (não me perguntem porquê) e "raios partam o Padre Lino" (não me perguntem de todo porquê). Perante esta "maçada" monumental, ofereceu-se várias vezes para me pagar um telefone novo (sem sucesso, é claro), intenção compreensível, vinda de alguém que, quando peço para me passar a água nos almoços de domingo, me responde "água eu fosse, minha querida". E se lhe pedir uma fatia do cheesecake que comprou por ser o meu preferido (apesar do aniversário ser, ainda, o dela), certamente dirá "cheesecake eu fosse". A verdade é que não é todos os dias que temos gente disposta a materializar-se em comida por nós, gente que diz "ok chefe" a qualquer pedido nosso, gente que nos comprou dezenas de milhares de carteirinhas de cromos ao longo da vida, e que brincou connosco às passagens de modelos, aos ginásios e aos barcos, sempre no mesmo quarto, sempre com o mesmo cenário. Gente que puxa assim pela nossa imaginação não se encontra por aí aos pontapés.

 

Eu hoje passei o dia a receber chamadas e mensagens de gente que não sei quem é, e a lutar com um teclado gelatinoso para conseguir dar resposta a todos os "parabéns". Mas nem por um segundo consegui chatear-me com a D. Maria Estela Baptista. Nem uma pequena praga lhe roguei. É impossível. Restou-me encomendar um telemóvel novo e sorrir, abanando a cabeça como quem diz outra frase típica dela: "isto só visto, que contado não tem graça".

 


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escrito por Joan@ às 01:18
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2 comentários:
De Câmara Lenta a 4 de Janeiro de 2010 às 02:53
Esse telemóvel, no fundo, é um sacripanta (os avós têm todos um modo de falar).

Como te entendo. Conseguir ouvir a gargalhada da minha avó foi, durante muito tempo, o que me fazia inventar piadolas e situações caricatas. ;)

Escreve, escreve, que a malta gosta de ler


De Rita a 21 de Março de 2010 às 10:44
Grande Avó! :)


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