Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Eu adoro ver televisão, não é novidade para ninguém. E raras vezes me sinto defraudada. Acho que se retira sempre qualquer coisa de positivo: sou capaz de ver repetições do Mundo das Mulheres, directos do telejornal, o boletim meteorológico do senhor de lacinho da RTP, desenhos animados do canal 2, a ginástica da Praça da Alegria, entrevistas de Eládio Clímaco na RTP Memória, o filme que já passou 57 vezes no Hollywood, a crítica de jogos de playstation na Sic Radical, seja lá o que for, por mais desinteressante que seja. Quem come de tudo diz que é "boa boca", eu neste caso sou "bom olho", não tenho qualquer critério, tudo marcha.

Há muito tempo que não me sentia como ontem, depois de ver a reportagem da RTP sobre o humor nacional. Apeteceu-me escrever para a televisão estatal a pedir os meus minutos todos de volta. Se tempo é dinheiro, da maneira que isto anda, perdi uma fortuna ontem, que tanta falta me faz. O tema é apetecível e dá pano para mangas. Matéria-prima e mão-de-obra não faltam. Mas a jornalista Mafalda Gameiro conseguiu estragar tudo. Fiquei logo preocupada com os oráculos com o sofisticadíssimo "smile" amarelo. Não augurava nada de bom. Nem isso nem os inserts de um grupo de jovens escuteiros numa sala a rir desalmadamente em frente à televisão. Como se as pessoas ainda reunissem grupos de 15 elementos para ver alguma coisa na televisão que não seja futebol. A reportagem foi uma sucesão de momentos desconexos: Luís Filipe Borges e Pedro Fernandes a comer pipocas na Carruagem, Filomena Cautela e Pedro Mexia apresentados como comediantes - estando um muitos níveis abaixo e outro vários degraus acima (deixo ao vosso critério quem é quem, até porque calculo que apreciem imenso as crónicas de Cautela), um vídeo-OVNI de Raul Solnado plantado lá no meio e, acima de tudo, a tentativa (vã! mesmo muito vã!) de Mafalda Gameiro ser humorista enquanto entrevista Ricardo Araújo Pereira e o trata como um miúdo da quarta classe.

Quanto ao critério das pessoas escolhidas, dá sempre azo a discussões... também as houve quando passaram as Divinas Comédias. Tal como cada um de nós escolheria o seu próprio best of musical do ano ou da década, cada um escolheria os seus cómicos. Mas é impossível comparar o critério de um e doutro trabalho. A reportagem de ontem mais depressa parecia saída do Só Visto, para publicitar os programas da RTP. E ao menos a Núria Madruga é mais gira, e acredito até que faria perguntas mais acertadas, e menos comentários do género "este aqui é um prato".

Para quem quiser partilhar o sentimento de vergonha alheia que me consumiu na noite de ontem, aqui fica. Boa sorte:

Reportagem "Humor à Pátria"

 

 



escrito por Joan@ às 09:41
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Domingo, 24 de Outubro de 2010

Diz o dicionário que ilusão é "engano nos sentidos ou pensamentos". E há lá melhor coisa do que andar enganado?!

O Pai Natal tem muito mais encanto antes de percebermos que é o nosso primo mais velho com um fato encarnado dos chineses. Perceber que um Pai Natal domina o idioma português é o primeiro passo para a desilusão. Toda a gente sabe que a nossa expansão não passou pelos lados da Lapónia, qual era a probabilidade de um velhote gordo e de barba ter suficiente proactividade para se inscrever num curso livre de "Português para estrangeiros"? Ainda assim fazemos o possível por continuar iludidos. Somos miúdos mas não somos estúpidos, tentamos é esticar a corda enquanto ela não rebenta. Enquanto o nosso primo não estica demasiado o braço e mostra aquele relógio que só ele é que tem e que se esqueceu de tirar para encarnar o Pai Natal... Amadorismo.

Na televisão o engano profissionaliza-se, o amadorismo fica de lado e há gente que se forma e se prepara para conseguir enganar o melhor possível. E nós acreditamos! Quanto mais trabalhos faço para essa coisa a que tantos insistem em chamar "caixa mágica", melhor percebo o quão acertado é este termo. A televisão é de facto como aqueles kits de magia que nos dava o nosso primo Diogo, ai, desculpem, o Pai Natal. Lá dentro está cheia de truques, lenços que se transformam em coelhos brancos, moedas falsas e mangas postiças de onde saem pombos (nunca tive um kit tão evoluído assim, confesso). A televisão é, toda ela, um truque digno de David Copperfield nos seus melhores anos. Serram senhoras ao meio e nós não percebemos para onde é que elas vão, sorteiam carros e casas e nós acreditamos sempre que é tudo feito de forma idónea - e não combinado com uma tia do assistente de realização, fazem reality shows e nós não nos intrigamos com o facto de na ficha técnica haver equipas inteiras de guionistas.

Robert Redford tentou alertar-me para isso há muitos anos, com o seu "Quiz Show" mas aí pensei "isto é cinema, não é realidade". Nunca consegui ser crédula no que à sétima arte diz respeito. Talvez por se desenrolar num cenário tão imponente, com um ecrã tão gigantesco e disforme, com um aparato que não é compatível com a nossa verdade da vidinha de todos os dias. No cinema, sempre que há sangue eu penso no trabalhão que deu à equipa de maquilhagem, sempre que alguém cai dum prédio eu reparo que não se vê a cara do duplo que, coitado, teve que saltar do arranha céus abaixo.

Passei mais de metade da minha vida ou a olhar para um ecrã, ou a ouvir coisas que vinham dum ecrã, ou a comentar coisas que saíram desse ecrã. E ultimamente tenho ouvido histórias que põem em causa tudo aquilo que eu tomava como verdadeiro. É um choque! Descobrir, aos 24 anos, que a Gisela Serrano do Masterplan não era casada com aquele trinca-espinhas, que eram um casal formado num casting, é devastador. É coisa para me fazer ir às Tardes da Júlia no dia em que o tema for "sonhos destruídos" (é provável que as pessoas que lá vão sejam figurantes também, ainda é coisa para me render uns bons dez euros). E como esta história há tantas, tantas outras, que obviamente vou guardar para mim, porque não quero fazer o papel daquele miúdo que vai avisar os irmãos mais novos de que o Pai Natal é afinal o primo Diogo.

Para o dicionário ilusão é também uma "esperança irrealizável", e deve ser isso que explica que eu continue a fazer o esforço diário de esquecer que é tudo combinado e olhar para a televisão com o fascínio e os olhos esbugalhados doutros tempos. É difícil, mas com esforço chega-se lá. Este Verão tambem consegui estar na Disney World e acreditar que o Mickey era verdadeiro, e não um estagiário venezuelano a transpirar dentro dum fato de peluche. Não há limites para mim, no que à ingenuidade diz respeito. Venha de lá mais uma dose de Casa dos Segredos.



escrito por Joan@ às 11:05
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Andava eu no 7º ano (há meia dúzia de meses, portanto) quando fui às Amoreiras, à Valentim de Carvalho (sim, eu vivi na era pré-Fnac) para comprar o CD dos Fool's Garden com o sucinto nome "Go and ask Peggy for the principal thing". Havia duas unidades, eu trouxe uma delas, e sempre que lá voltei visitei a secção do F e o CD continuava lá, sozinho, à espera que alguém o levasse. Isto levou-me a crer, durante anos e anos, que era a única fã de Fools Garden no mundo inteiro. Hoje, sem explicação aparente, acordei com uma música deles na cabeça - talvez isso explique o meu (des)penteado - e não posso esconder o alívio que foi constatar que no Youtube esse grande single de 1997 chamado Probably já foi visto por 272 mil pessoas.

 

 

 

 

Afinal não estou sozinha! Há mais gente que passou algum tempo da sua vida a ouvir uma banda alemã de terceira linha. Descobri entretanto que em 2009 editaram um Best Of chamado High Times. Sim, um best of! Suponho que todas as faixas se chamem "Lemon Tree", o único verdadeiro sucesso da banda. Mas apesar deste escárnio, não há como esconder: eu continuo a gostar deles. O CD continua ali, todo partido, lembrando o uso desmedido que teve... Não está escondido na parte de trás da prateleira como o das Spice Girls ou o do Netinho (que sinto que guarda para poder chantagear-me a mim própria de vez em quando), está ali porque sei que qualquer dia voltará ao meu carro, para dar uma volta e mostrar o seu melhor "Why Did She Go?".

 

 

 


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escrito por Joan@ às 10:59
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Domingo, 10 de Outubro de 2010

Seguindo o exemplo da excelsa (e outras coisas mais) Susana Romana, que diz que "se um dia for entrevistada pelo Daniel Oliveira, entre lágrimas e ranhoca, já tem o tpc adiantado", aproveitei uns minutinhos para adiantar os meus "deveres".

 

Gosto de ler revistas de trás para a frente, numa leitura que inclui fichas técnicas. Eu sou a pessoa que vai sempre à procura da nota de rodapé para a qual remete um asterisco perdido no texto.

 

Gosto de ver televisão. Toda a televisão do mundo. E em particular a de Queluz.

 

Gosto de ver futebol mas gosto vinte vezes mais de ver debates sobre futebol. São as melhores sitcoms nacionais.

 

Não gosto de perder. Não é de agora: quase todas as pacíficas tertúlias familiares a jogar Pictionary ou Trivial acabavam comigo a virar o tabuleiro ao contrário depois de ter falhado uma qualquer pergunta sobre capitais europeias. E no pós-jogo o desafio era outro: fugir do meu pai e impedir que ele me virasse a mim ao contrário!

 

Gosto de ir ao supermercado. A terapia de algumas mulheres será na Massimo Dutti em tempo de saldos. A minha é certamente no Jumbo em tempo de promoções nos lacticínios.

 

Gosto de Pizza na Brasa, mesmo sabendo que é menosprezada perante a Telepizza. Gosto de Baskin&Robins mesmo depois de ter sido suplantada pela Haagen Dazs.

 

Gosto de andar de carro sem destino. Com destino nunca corre bem porque perco-me sempre.

 

Não gosto de álcool. Nem de café. Nem de tabaco. E nem sequer tenho a desculpa de pertencer a uma igreja esquisita. Sou apenas pouco cool.

 

Gosto de planear a minha festa de anos nas férias do Verão e de começar a comprar presentes de Natal em Outubro.

 

Gosto de navegar aleatoriamente pela Amazon, como quem passeia pelo Colombo a um domingo. Mas sem o cheiro a suor "derivado aos" fatos-de-treino em polyester.

 

Gosto do Inverno, mesmo sabendo que "o que está a dar" é gostar do Verão.

 

Gosto do cheiro de pão acabado de fazer. E acho que "pão com queijo" é uma iguaria que devia receber uma estrela Michelin.

 

Não gosto de andar de metro. Nem de avião. Um é muito em baixo, outro muito em cima. Não gosto de conduzir muito rápido nem muito devagar. Gosto do meio-termo.

 

Gosto de sair do ginásio às oito e meia da manhã, muitas vezes com dificuldades de locomoção mas com um "check" mental feito.

 

Gosto de ver fotografias antigas, de abrir documentos há muito tempo encerrados no computador, de iniciar conversas com a pergunta "lembras-te daquela vez em que..."

 

Não gosto de pessoas demasiado simpáticas.

 

Gosto de comer sushi todas as sextas-feiras.

 

Não gosto de batatas fritas.

 

Gosto quando passa na rádio a minha música preferida. Tê-la em CD não resultaria. É da imprevisibilidade e da surpresa que nasce a alegria.

 

Não gosto de Carnaval. Nem de Halloween. Nem de tunas académicas. Sim, está tudo no mesmo saco.

 

Gosto de palavras. Das que já caíram em desuso e das que ainda não conhecia.

 

Gosto de descobrir restaurantes novos.

 

Não gosto de gastar dinheiro (nem que sejam 10 euros) em restaurantes que o não merecem.

 

Não gosto de falar ao telefone. Acho que esgotei todo o meu talento para isso entre os 13 e os 14 anos. Devo ter um total acumulado de minutos ao telefone superior a muitas operadoras de telemarketing.

 

Gosto de viajar. E gosto ainda mais de planear as viagens. Acho que percorro mais kilómetros antes do que durante.

 

Gosto de ter saudades. E de as matar.

 

Gosto de escrever: recados, sms, mails, cartas e, quando tem mesmo de ser, guiões. Mas sou muito melhor ao nível do postal.

 

Gosto do Facebook. "Joana likes this".

 

Gosto de imaginar como é que vai ser no futuro. De que é que eu vou gostar e desgostar?

 

Para o caso de, por essa altura, Daniel Oliveira não ter ainda abandonado a pergunta "o que dizem os seus olhos?", os meus dirão certamente "medo, mito medo! Quero fugir daqui enquanto é tempo, antes que penses que és o meu melhor amigo e me peças para dormir lá em casa". Acho que é um sentimento partilhado por todos os entrevistados do Daniel Oliveira. Ele é uma espécie de psicopata terno. Tem uma abordagem subtil, à la violador de Telheiras. Tenta conquistar as pessoas com montagens fotográficas fofas ao som do último êxito dos Coldplay, para depois as perseguir para todo o sempre. E consta que há uma ou duas vítimas que ficam com síndroma de Estocolmo (afeição pelo agressor). É ver o caso de Ronaldo que já foi entrevistado para cima de dez vezes.



escrito por Joan@ às 00:52
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