Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Estou prestes a começar a escrever a próxima crónica para a revista do The Place e e lembrei-me (que é como quem diz "resolvi adiar a angústia da página em branco") de publicar aqui a do último trimestre, já bafienta e desactualizada, que são sempre bons atributos para uma crónica.

 

Lyonce, Mourinho, Tiago e Dakar (qual destes não é nome de pessoa?)

 

Há quem diga que o futebol são 11 homens de cada lado a correr atrás duma bola. Nada mais redutor e, diria mesmo, falso! Futebol é tudo o resto: os árbitros, os adeptos, as amantes dos jogadores, as mulheres legítimas dos jogadores e os nomes que elas dão às crianças dos jogadores. Pois é, Yannick Djaló foi pai, aoo que parece, de uma menina. Mas o nome Lyonce Viiktórya deixa dúvidas. Fico a pensar “será um pássaro? Será um avião? Será uma nave espacial? Será uma espécie endémica?”.

Enquanto isto, na Europa civilizada atribuem-se prémios. José Mourinho arrecadou a Bola de Ouro e, simultaneamente, a admiração de milhares de compatriotas, por ter cometido a proeza de... falar em português. É natural o espanto, realmente há muitos anos que não o ouvíamos expressar-se na língua de Camões. Ouvimo-lo falar uma espécie de inglês, uma espécie de italiano e agora uma espécie de espanhol. Sempre com accent setubalense. José Mourinho é um poliglota especial: sabe dizer choco frito em todas as línguas do Mundo. The Special One, em termos linguísticos, safava-se perfeitamente se vivesse na Torre de Babel. Só ia haver problemas nas reuniões de condomínio. É que, seja em que idioma for, já se viu que Mourinho não gosta que lhe pisem os calos. Agora o próximo passo é conseguir pôr o Jorge Jesus falar português. As dificuldades de expressão do treinador são tantas que no último jogo do Benfica com o Nacional, Jesus precisou de recorrer à linguagem gestual para expressar a sua admiração por Luís Alberto. Expressou-a em cheio no estômago.

Ficámos recentemente a saber que Tiago (ainda se lembram dele?) renunciou à selecção nacional. Esta tradição que se instalou entre os jogadores portugueses é, quanto a mim, um sinal de boa educação. Eles estão todos a fazer cerimónia. Sabem quando nos oferecem uma coisa muito boa e nós, educadamente, recusamos? Estendem-nos aquela última fatia de toucinho do céu e nós fingimos que não queremos. Ao contrário dos garganeiros do anúncio do Mon Cherie, que se digladiam pelo último bombom. No futebol, como na vida, é assim. Há os Tiagos e os Simões que preferem deixar a última fatia de descrédito com o equipamento das quinas para os outros, e há os gulosos, tipo Fábio Coentrão ou Eduardo, que até se oferecem para ser apanha-bolas se for caso disso. Uns mal-educados é o que é. No meio é que está a virtude, ou neste caso o Cristiano Ronaldo, que aceita ir mas não joga. No fundo, recuperando a metáfora gastronómica, Ronaldo aceita o toucinho do céu mas mete no bolso e leva para casa. E acaba por ser a sua mãe Dolores a deitá-la fora, quando vai pôr o casaco a lavar na máquina. Perde-se um doce conventual, neste caso, e perdem-se jogos para a qualificação, no outro.

Para superar a crise de confiança nacional devíamos dar mais atenção a outros desportos. Por que não festejar efusivamente a melhor classificação de sempre dum português no Dakar? Mesmo que nunca tenhamos ouvido falar de Hélder Rodrigues e pensássemos, até há pouco tempo, que Dakar era um stand de automóveis ali ao pé da João XXI. Aliás, a ignorância nunca foi um entrave para as comemorações lusas. Ou acham mesmo que alguém sabe quem são os Capitães de Abril, quando se fica em casa a aproveitar o feriado? Sei de muito boa gente que pensa que eram jogadores do Benfica, na época em que o Sporting tinha os Cinco Violinos...

 

 

(A ilustração é do Ricardo Galvão). 

 

Agora sim, vou só passar uma roupa a ferro (aprender primeiro, que não sei bem como se faz), tomar um café (mesmo não gostando), fazer um zapping, apreciar a paisagem no terraço, ler os jornais do dia (só as "gordas", que é como quem diz "as notícias sobre o Peso Pesado), ler com pormenor os últimos 320 posts do Facebook e depois então escrever a próxima crónica.



escrito por Joan@ às 11:41
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Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010

Aqui fica mais uma crónica que escrevi para a revista do The Place, do Holmes Place.

 

Desporto rei ou novela rainha?

 

Ainda há quem revele incontido espanto quando dá de caras com uma mulher que gosta de futebol. Não percebo... O motivo pelo qual mulher que se preze aprecia futebol é nítido, e não tem nada a ver com a velha história de 22 homens de calções (sem contar com os árbitros, que são cada vez mais mas continuam a ter as piores pernas). O fascínio das mulheres por futebol resume-se a uma palavra: telenovela. Nada se aproxima mais de uma novela do que o futebol. É uma sucessão imparável de episódios, mais duradoura que o Anjo Selvagem e com o atractivo de não termos de levar com a Paula Neves. Os ingredientes estão todos lá: escândalo (a dúvida “mão na bola ou bola na mão?” está quase a destronar “o ovo ou a galinha?” no topo das questões existências), traição (John Terry é amante das mulheres dos colegas), rivalidade entre famílias poderosas (Moutinho, o Romeu da família Montequio, vulgo Sporting, é adoptado pela família Capuleto, vulgo Porto, que dá para troca Nuno André Coelho, nitidamente uma Julieta do futebol nacional), mistérios insondáveis (Ronaldo consegue desencantar um filho logo a seguir ao desastroso mundial, como se se tratasse dum daqueles saltos nas novelas, em que aparece uma legenda a dizer “nove meses depois”), grandes zaragatas – o termo técnico é mesmo este (Sá Pinto dá uma óptima Marina Mota do futebol, e nem precisa de gritar tanto), casos de polícia (os franceses Benzema e Ribéry perceberam agora que Thierry Henry ter posto a mão na bola nem foi assim tão grave, pôr a mão numa prostituta menor consegue ser pior) e grandes paixões (o que dizer do abraço de Mourinho e Materazzi na despedida do Inter? Aquilo era amor, não era um “choro técnico”).

Na Maria encontramos o resumo das novelas, coisas como “Rómulo beija Cassandra”, n’A Bola temos informações imprescindíveis como “Nani magoa clavícula” ou “Deco critica Queiroz”. A novela do futebol tem a vantagem de nunca parar. Nem nos meses de Verão, em que a imprensa se transforma num gigantesco “cenas dos próximos episódios”, inventando contratações milionárias para vários clubes e relatando outras, que apesar de verdadeiras, parecem invenção, como Maniche no Sporting ou o guarda-redes mais caro e mais falível do Universo no Benfica, quando tinham o Eduardo a preço de saldo (é o equivalente a casar com a irmã rica e má em vez da pobrezinha que está tão apaixonada). Se até isso falhar, podemos sempre acompanhar as férias dos craques, em Albufeira. Por muito que ganhem, eles não abdicam de passar Julho no cenário dos “Morangos com Açúcar de Verão”. No futebol como nas novelas, há os eternos figurantes, aqueles que nunca passam do banco ou do papel de mordomo, os Zés Castros deste mundo, e há as divas, claro: dum lado Alexandra Lencastre de relação em relação, do outro Abel Xavier de conversão em conversão. E mais uma vez o futebol sai a ganhar, porque só Faisal tem mais variedade de guarda-roupa que um elenco da TVI inteiro.

No meio disto, eu estranho é que os homens ainda gostem de futebol. Nota-se que estão cada vez mais metrossexuais: depois dos vinte cremes para corpo, rosto e mãos, é a paciência que demonstram para acompanhar esta “Tieta do Agreste” versão alta competição.

 



escrito por Joan@ às 10:27
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Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

Aqui fica a crónica que escrevi para a revista The Place, disponível aqui e em todos os clubes Holmes Place por esse país fora.

Leiam-na vocês porque os sócios do ginásio já sabemos que não são muito dados a volumes com mais de sete caracteres.

 

BATIMENTOS POR MINUTO

 

O bolo alimentar da massa adepta

 

“A satisfação está no esforço e não apenas na realização final”, dizia Gandhi (calma, não párem já de ler, há uma razão válida para ter começado com esta citação). Por aqui bem se vê que Gandhi nunca trocou as suas sandálias por uns ténis para ir ao ginásio. Conhecemo-lo como pacifista, o que não é mais que um eufemismo para preguiçoso. O que dizer duma pessoa que passa o dia enrolada num lençol? Se alguma vez tivesse tentado fazer uma aula de step, Gandhi retirava o que disse. Durante o esforço não há satisfação alguma. Há sofrimento sob a forma de suor, apenas. Admiro a perseverança dos atletas de alta competição. E confesso até me identifico com um deles: Marco Fortes, autor da frase “de manhã só é bom é na caminha”. Concordo com ele sempre que o despertador me obriga a ir para o RPM às 7 da manhã. A verdade é que o atletismo não seduz os portugueses. Estranhamos que alguém corra sem ter à sua frente uma bola. O andebol idem. Faz-nos confusão que as pessoas possam agarrar a bola com a mão sem que se clame por falta. No rugby chocamo-nos com tanta violência dentro do campo e não fora. Do golf talvez venhamos a gostar um dia, quando houver adeptos a arremessar bolas de futebol para dentro do green. Em Portugal só há lugar para o futebol e seus derivados: o futsal, equivalente futebolístico das danças de salão (infelizmente sem a parte da indumentária, era espectacular ver Ricardinho envolto em folhos), o futebol de praia e os desafios solteiros vs. casados. Já pararam para pensar o que mais nos fascina no futebol? Estou em condições de adiantar que é a comida. Não há desporto que faça mais pelo bolo alimentar do que o futebol. É uma actividade que vai bem com tudo. Uma febra não cai tão bem se estivermos a assistir a uma emocionante final de bilhar e os tremoços podem resultar em indigestão enquanto vemos natação sincronizada. Daí que não demos grande valor ao alpinismo – um desporto em que a única comida possível tem de ser liofilizada e desidratada. De que vale chegar ao pico do Annapurna se não se pode comemorar com um Bacalhau à Gomes de Sá? Sinceramente ainda não percebi se o contentamento de João Garcia se deve a escalar as mais altas montanhas ou ao facto de o conseguir sem perder mais nenhum membro. É que consta que já o apelidam de Michael Jackson dos Himalaias. No futebol, Taça de Portugal é sinónimo de sardinhada e apoiar a selecção nacional é o pretexto ideal para um mega piquenique. A juntar a isto, um dos grandes patrocinadores do Mundial é uma cadeia de fast food, que na sua campanha lança a pergunta: “ Que tal ires ao Mac e acabares na África do Sul?” Eu acho péssimo, parece-me sinal de rapto para extracção de órgãos.

 

(Nota: na mesma revista há ainda lugar para uma crónica da ilustre Susana Romana, com ilustrações do não menos ilustre Ricardo Galvão)

 



escrito por Joan@ às 01:11
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