Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Este blog começa a ser como um daqueles parentes que só vemos de ano a ano (precisamente pela altura do Natal), mas não é por isso que vou acabar com ele. Também não matamos o nosso tio-avô lá porque só o vemos na Consoada.

 

Assim, e passado quase um ano desde o último post, venho fazer o meu rescaldo de 2012. Com atraso, bem sei, mas não tenho culpa que a época de Natal seja tão má para os guionistas como para os pasteleiros: também fazemos horas extra. E o pior é que não é a pincelar bolo-rei. 

 

Mas não queria deixar passar em claro um ano tão importante como 2012. Afinal de contas foi o ano em que o meu grande herói, Paco Bandeira, que me tinha feito comprar a cassete da banda sonora da Roseira Brava, mostrou que a ternura dos 40 não existe coisa nenhuma! O melhor é aproveitar a ternura enquanto tenho 27, que depois acaba-se e o tratamento é de caçadeira para cima.

 

2012 foi o ano em que fiquei a conhecer Helsínquia, Oslo, Estocolmo, Copenhaga e Madrid. Ah, e Ofir também (muito bonito). Foi o ano em que mais kilómetros de páginas escrevi (devia usar um tacómetro, com os camionistas). Foi o ano em que conheci Deus (há quem lhe chame Manuel Luís Goucha). Foi o ano em que aprendi a andar de bicicleta (sem rodinhas!). Foi o ano em que a minha casa deixou de ter uma espécie de catarata do Niagara na sala (bom para atrair turistas, mas chato na rotina diária). Foi o ano em que comecei a acordar antes das seis da manhã para cumprir um daqueles sonhos que nós achamos que são tão altos que nem verbalizamos (até porque coisas altas dão-me vertigens). Foi o ano em que fiz novos amigos (logo eu, que sou tão anti-social). Foi o ano em que aprendi (aprender é uma palavra claramente exagerada) a jogar squash. Ah, e foi o ano em que descobri finalmente onde comprar bons rissóis de camarão. Nunca devemos subvalorizar um bom rissol.

 

2012 ainda não foi o ano em que tive uma apendicite (mas passei uma tarde no hospital a pensar que sim). Ainda não foi o ano em que ganhei o Euromilhões (o facto de não jogar talvez não ajude). Ainda não foi o ano em que voltei aos Estados Unidos. Ainda não foi o ano em que cumpri uma dieta exemplar. Por isso é que inventaram 2013. Ou então vai só ficar tudo na mesma, e vai ser muito bom assim.

 

 

 


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escrito por Joan@ às 20:53
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

O Canal Q fez dois anos dia 29 de Março.

As Produções Fictícias fazem 19 anos dia 1 de Abril.

 

Eu fiz 26 anos dia 3 de Janeiro.

E 5 anos de Produções Fictícias no dia 2 de Fevereiro.

 

Eu detesto números, e sou completamente inapta para contar, somar ou subtrair. Mas às vezes reconheço que estes algarismos dão jeito para nos lembrarem que estamos exactamente onde sempre quisemos estar. E a felicidade que isso traz é inquantificável. (felizmente, porque também sou uma nódoa a quantificar).

 



escrito por Joan@ às 11:46
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Tenho medo de cães. E de gatos. E de hamsters, porquinhos da índia, furões, doninhas, baratas, osgas, lagartos. Tenho medo de peixes de aquário - uma vez uma amiga minha tentou "curar-me" desta fobia por animais e ofereceu-me um aquário com os ditos cujos lá dentro, não demorou mais que 3 dias até eu os doar, tipo "passa a outro e não ao mesmo" - tenho medo doutros peixes, basicamente de todos os que não estejam escalados num pratinho, ladeados por limão e feijão verde. Tenho medo de ferozes tubarões ou de fofos golfinhos. Não faço distinções. Vacas, cavalos, ovelhas, todos me atemorizam. Tenho medo de montanhas russas. De desportos radicais. De agulhas. De todo o tipo de exame médico. Tenho medo de doenças, e acho sempre que vou falecer duma diferente a cada semana. Tenho medo de andar de avião. E de carro, quando vou na condição de passageiro. E por falar nisso, de autocarro também, que aqueles tipos da Carris acham todos que nasceram para ser o Fangio. Helicópetro então nem pensar. Nem motas. Também tenho medo de andar de bicicleta, embora tencione superá-lo um destes dias. E de patins e de skate - esses já desisti de superar, morrerei com eles. Tenho medo de elevadores. Tenho medo de multidões. Tenho medo de espaços fechados. Tenho medo de ladrões (essa entidade abstracta). Tenho medo do mar. Tenho medo de ficar fechada em casas-de-banho, e isso acontece-me demasiadas vezes. Deve ser o meu medo que actua sobre fechaduras, estragando-as para todo o sempre.

 

E a juntar a todos estes medos já identificados e catalogados, há ainda o terível medo do desconhecido.

 

Os destemidos sempre foram admirados, e hoje mais que nunca, quando o vídeo mais visto do YouTube mostra um tipo a quem o medo não assiste, mesmo na hora de espetar a tromba no alcatrão. Ainda assim gosto de acreditar que a falta de inteligência e o medo são inversamente proporcionais. Perceberam, não é? Prefiro ser considerada um pequeno génio incompreendido do que uma grandessíssima mariquinhas. Isto porquê? Porque tenho medo de que me apontem na rua! Não, vá lá, deve ter sido a única fobia de que nasci a salvo - o medo do ridículo. Caso contrário este texto nunca poderia existir.

 

PS - E apesar desta infindável lista (à qual podia juntar mais 480 coisas) conheço pessoas com medos ainda mais estranhos do que eu, nomeadamente: anões e pêssegos. Felizmente estas fobias não pertencem à mesma pessoa, porque vivem-nas com tal intensidade que a visão de um anão com uma lata de melocoton em calda nas mãos podia ser mortífera.


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escrito por Joan@ às 18:29
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Fazer malas. Madeira. Os taxistas do nosso aeroporto ao pé dos madeirenses são uns meninos de colo. 35 euros para chegar ao hotel. Piscina. Bolo do caco. Várias estações do ano no mesmo dia. Barco para Porto Santo. Porto Santo às moscas porque toda a população foi levada a ver o Querido Líder ao Chão da Lagoa. Rally da Madeira. Restaurante Riso, em que tudo leva arroz. Volta à ilha, não em bicicleta mas em carro alugado. Subida com inclinação de 27%. Carro não sobe à primeira. Nem à segunda. Inversão de marcha. Mais voltas à ilha. Casinhas de Santana, espetada em pau de louro, piscinas naturais. Poncha de maracujá. Senhoras e meninas nitidamente vestidas pelas boutiques do Cristiano Ronaldo. Bom sushi no Shu.aka. Casal tuga partilhando táxi connosco para fugir à máfia, e o cabeça de casal a dizer "que a pancha é um veneno, que as pessoas bebem como se fosse sumo e depois ficam com a cabeça à roda". Muitos escuteiros ou escoteiros - vá-se lá distingui-los - em todos os aeroportos e aviões. Não se pode proibir este fagelo?

 

Desfazer malas. Fazer malas.

 

O Grove. Ou "a estranha mania dos espanhóis juntarem o artigo ao nome da terra". Pinchos. Calamares. Praia em que a água se assemelha a uma cuvete de gelo gigantesca. Dores nos ossos. Praia bonita, ainda assim. A incompreensão de ainda haver hoteis que cultivam o cheiro a mofo. Aquilo deve dar trabalho, é preciso método para deixar sempre as janelas fechadas, permitindo que o aroma das alcatifas flua. Dono de café mal educado e pouco dado a receber clientes. Pedido de livro de reclamação. Pedido negado. Chamar polícia de O Grove. Bonitas fardas. Reclamação feita, procurámos outros sítios para mostrar o espírito contestatário dos portugueses. Sem sucesso. Os outros galegos insistiram em tratar-nos com amabilidade. Não se percebe. Mojito tostado.

 

Praias de Moledo e do Cabedelo. A gente do Norte só pode ser feita doutro material. Para os lisboetas a praia é sinónimo de descansar, andar de gaivota, comer gelados. Para eles é sinónimo de lutar contra o vento, entrar num mar de zero graus com bandeira vermelha, comer areia, evitar levar com um kitesurfer em cima. Digamos que mais do que uma tarde de lazer parece uma prova dos Gladiadiores Americanos.

 

Viana do Castelo.

E estes versos a ganhar mais sentido do que nunca:

Se o meu sangue náo me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia.

 

O sangue não me enganou. Uma das terras mais bonitas de Portugal. Pousada O Laranjeira, a mais pitoresca que já vi, e estrategicamente localizada em frente à confeitaria Natário, muito elogiada por Jorge Amado. Parece que a especialidade são as bolas de berlim. Tivemos que fazer o sacrifício de provar. Descobrimos que o Jorge Amado era um vendido, ou tinha um grave problema de gula. Apanhámos vários textos elogiosos sobre outros estabelecimentos de restauração. Devia ser amigo de comer à pala. Percebo agora o Gabriela "cravo e canela"! Só estranho não ser "Dona Flor e os seus dois pudins". Santa Luzia - quero uma casa com uma vista assim. Restaurante O Camelo, overdose de rojões. Ponte de Lima. Overdose de cabrito. Instala-se a dúvida: como é que o Minho não tem taxa de obesidade superior à dos EUA? Rio Lima - uma semana depois vimos notícias sobre a qualidade (ou falta dela) da água. Tarde demais. Valeu a pena o mergulho, mesmo que venha a ter erupções cutâneas na testa. Festa de Santoinho. A melhor festa de sempre. Esqueçam o Carnaval da Bahia, e até mesmo o de Torres, esqueçam os Santos Populares, esqueçam até o Natal. Nem o nascimento de Jesus/louca descida do Pai Natal pela chaminé (escolher a opção preferida) me enchem de quentinho como a maior festa de emigrantes do Norte. Uma romaria de lusodescendentes iguais ao Cristiano Ronaldo mas que "ne parlam pas portugais", trazidos pelos seus pais com fartas bigodaças e que trabalham em Lausanne. A maior concentração mundial de camisolas pretas com letras douradas a dizer "orgulho português". E nós estivemos lá. A comer broa, sardinhas, frango assado e... mais importante... a beber champarrião. Diz-nos a Wikipedia que é vinho verde com cerveja e açúcar. Nós bem sentimos qualquer coisa estranha no estômago no dia seguinte...! Actuação de ranchos folclóricos e de grupo musical com repertório de Tony Carreira. Em cada emigrante um amigo.

 

Póvoa do Lanhoso. Bungalow de madeira num parque aventura (porquê, meu Deus, porquê? Porque me meto nestas provações?). Perseguidos por uma vaca. Sobrevivemos. Chega de adrenalina para mim, obrigadinha.. 43 graus. Albufeira da Caniçada. Os nossos amigos emigrantes outra vez. À luz do dia são piores. Sobretudo porque têm todos o símbolo da Federação Portuguesa de Futebol tatuada no peito. Suspeito que acham que aquilo é a bandeira nacional. 

 

Desfazer malas. Fazer malas.

 

Algarve. Arranjar um lugar na areia é mais dificil que resolver um cubo de rubik. Uma pessoa acaba por se render e ficar ao lado dum grupo de adolescentes de Vila Nova de Gaia, como sempre tivessemos sido amigos e tivessemos muito mais afinidades para além da escolha da praia da Falésia. Mas tudo vale a pena (mesmo com almas pequenas) quando a temperatura da água ronda os 24 graus. Repor os niveis de ómega 3 com peixe cru no Tako, que o último sushi já ia longe (estranhamente no Minho não há uma grande comunidade japonesa), e acabar sem dó nem piedade com o dolce fareniente, com regresso a Lisboa e escala em Tróia, só para o desmame não ser abrupto e não corrermos o risco de danos cerebrais (mais ainda dos que a leitura exclusiva de revistas cor-de-rosa já causa).

 

Desfazer malas... ao fim de muitos dias com elas a olharem para mim.

 

Agora... sopas e descanso, o que não deixa de ser irónico depois de três semanas em que era suposto descansar. A minha vida de trabalho é muito menos exigente que isto! Que bom estar de volta.

 

(*) O título deste post é uma passagem de uma obra da música ligeira portuguesa, da qual infelizmente nunca consegui encontra registo, mas que nunca esqueci!


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escrito por Joan@ às 18:20
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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Fiz ontem bodas de prata comigo própria. Parte má: estou velha. Parte boa: não penso divorciar-me. Quanto mais não seja porque com esta idade tão avançada e cheia de maleitas já não encontrava ninguém que quisesse ser eu. Portanto vou em frente, até às bodas de ouro (e platina, espero).´

Pela primeira vez fiz anos num dia normal. Não é que nos outros anos os dias não tivessem tudo de normal (desde o sol a nascer no princípio até ao carro do lixo a vir fazer a recolha no fim), eu é que teimava em transformá-los numa espécie de episódio especial de "Oprah's Favorite Things". Todos os minutos de todas as horas tinham de ter alguma coisa extraordinária a passar-se, o que acabava por causar mais exaustão do que êxtase. Ontem fiz 25 anos e isso não foi "a big deal". Mais importante foi a minha avó ter feito 88 anos na véspera, por exemplo, e eu ter reparado que quando fizer 88 anos, já não vou ter direito a essa pré-festa no dia 2 (a não ser que arranje uma neta que perpetue a irritante pontaria de nascer em época de ressaca). Mais importantes são todas as coisas que quero fazer em 2011, mais importante foi fechar o dossier "festividades" para poder voltar à vida normal, de todos os dias, que parece tão chata e afinal deixa tantas saudades, e mais importante ainda é deixar claro que gostei na mesma do meu dia, não sofro de qualquer tipo de depressão pós-parto com 25 anos de atraso e não quero que enviem enfermeiros com colete de forças para me virem buscar.

É claro que aproveitei todo e cada clássico do aniversário o melhor que pude: o pretexto para falar com gente que anda por aí perdida o ano todo e só cruza palavras em datas de nascimento, o quase bolo de anos oferecido pelos coleguinhas de redacção (um quase-bolo porque na verdade era um tronco de natal, e nem sequer quisemos saber porque raio alguém faz um tronco de natal em Janeiro...), o jantar com pompa e circunstância feito pela minha mãe, com direito a vol au vent e a cheesecake (o que prova que, das duas uma, ou somos uma família snob que só fala com estrangeirismos, ou estivemos vários anos emigrados na Suiça e em Newark, deixo à vossa consideração a conclusão), os presentes (desde a Escapada Pitoresca, que é nome digno de filme de domingo, até um relógio novo para pendurar numa parede nova). E por falar em presentes: estou crescida! Não recebi nenhum jogo, nenhum brinquedo, nenhum livro de colorir, só livros de receitas, pratos, travessas, talheres... A minha família quer transformar-me na Nigella Lawson. E eu deixo, que acho que isso ainda pode reverter a meu favor. É que até em termos gastronómicos eu estou crescida. Ontem almocei bacalhau cozido! Sim, comi aquele peixe que todos os adultos adoram, depois de anos e anos sem abdicar de um muito maduro atum ou duns sofisticados douradinhos.

Lembro-me de andar na escola e imaginar que gente com 25 anos era muito adulta, com vida feita, casa posta, marido e filhos.

Como não gosto de defraudar ninguém, e muito menos a mim mesma, anuncio aqui oficialmente que...

Não, estou a brincar. Vou continuar a crescer devagarinho, como fiz até aqui (por algum motivo ainda não passei dos 1,53m). Um pé atrás do outro. Um dia bacalhau cozido, noutro dia (quem sabe sexta-feira) habitação própria, e quando dermos por nós vou usar aquelas malas de couro que as mães usam e dentro das quais trazem carteiras que por sua vez têm fotografias tipo passe dos filhos, nas quais os filhos nunca estão favorecidos.

 


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escrito por Joan@ às 09:08
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Domingo, 10 de Outubro de 2010

Seguindo o exemplo da excelsa (e outras coisas mais) Susana Romana, que diz que "se um dia for entrevistada pelo Daniel Oliveira, entre lágrimas e ranhoca, já tem o tpc adiantado", aproveitei uns minutinhos para adiantar os meus "deveres".

 

Gosto de ler revistas de trás para a frente, numa leitura que inclui fichas técnicas. Eu sou a pessoa que vai sempre à procura da nota de rodapé para a qual remete um asterisco perdido no texto.

 

Gosto de ver televisão. Toda a televisão do mundo. E em particular a de Queluz.

 

Gosto de ver futebol mas gosto vinte vezes mais de ver debates sobre futebol. São as melhores sitcoms nacionais.

 

Não gosto de perder. Não é de agora: quase todas as pacíficas tertúlias familiares a jogar Pictionary ou Trivial acabavam comigo a virar o tabuleiro ao contrário depois de ter falhado uma qualquer pergunta sobre capitais europeias. E no pós-jogo o desafio era outro: fugir do meu pai e impedir que ele me virasse a mim ao contrário!

 

Gosto de ir ao supermercado. A terapia de algumas mulheres será na Massimo Dutti em tempo de saldos. A minha é certamente no Jumbo em tempo de promoções nos lacticínios.

 

Gosto de Pizza na Brasa, mesmo sabendo que é menosprezada perante a Telepizza. Gosto de Baskin&Robins mesmo depois de ter sido suplantada pela Haagen Dazs.

 

Gosto de andar de carro sem destino. Com destino nunca corre bem porque perco-me sempre.

 

Não gosto de álcool. Nem de café. Nem de tabaco. E nem sequer tenho a desculpa de pertencer a uma igreja esquisita. Sou apenas pouco cool.

 

Gosto de planear a minha festa de anos nas férias do Verão e de começar a comprar presentes de Natal em Outubro.

 

Gosto de navegar aleatoriamente pela Amazon, como quem passeia pelo Colombo a um domingo. Mas sem o cheiro a suor "derivado aos" fatos-de-treino em polyester.

 

Gosto do Inverno, mesmo sabendo que "o que está a dar" é gostar do Verão.

 

Gosto do cheiro de pão acabado de fazer. E acho que "pão com queijo" é uma iguaria que devia receber uma estrela Michelin.

 

Não gosto de andar de metro. Nem de avião. Um é muito em baixo, outro muito em cima. Não gosto de conduzir muito rápido nem muito devagar. Gosto do meio-termo.

 

Gosto de sair do ginásio às oito e meia da manhã, muitas vezes com dificuldades de locomoção mas com um "check" mental feito.

 

Gosto de ver fotografias antigas, de abrir documentos há muito tempo encerrados no computador, de iniciar conversas com a pergunta "lembras-te daquela vez em que..."

 

Não gosto de pessoas demasiado simpáticas.

 

Gosto de comer sushi todas as sextas-feiras.

 

Não gosto de batatas fritas.

 

Gosto quando passa na rádio a minha música preferida. Tê-la em CD não resultaria. É da imprevisibilidade e da surpresa que nasce a alegria.

 

Não gosto de Carnaval. Nem de Halloween. Nem de tunas académicas. Sim, está tudo no mesmo saco.

 

Gosto de palavras. Das que já caíram em desuso e das que ainda não conhecia.

 

Gosto de descobrir restaurantes novos.

 

Não gosto de gastar dinheiro (nem que sejam 10 euros) em restaurantes que o não merecem.

 

Não gosto de falar ao telefone. Acho que esgotei todo o meu talento para isso entre os 13 e os 14 anos. Devo ter um total acumulado de minutos ao telefone superior a muitas operadoras de telemarketing.

 

Gosto de viajar. E gosto ainda mais de planear as viagens. Acho que percorro mais kilómetros antes do que durante.

 

Gosto de ter saudades. E de as matar.

 

Gosto de escrever: recados, sms, mails, cartas e, quando tem mesmo de ser, guiões. Mas sou muito melhor ao nível do postal.

 

Gosto do Facebook. "Joana likes this".

 

Gosto de imaginar como é que vai ser no futuro. De que é que eu vou gostar e desgostar?

 

Para o caso de, por essa altura, Daniel Oliveira não ter ainda abandonado a pergunta "o que dizem os seus olhos?", os meus dirão certamente "medo, mito medo! Quero fugir daqui enquanto é tempo, antes que penses que és o meu melhor amigo e me peças para dormir lá em casa". Acho que é um sentimento partilhado por todos os entrevistados do Daniel Oliveira. Ele é uma espécie de psicopata terno. Tem uma abordagem subtil, à la violador de Telheiras. Tenta conquistar as pessoas com montagens fotográficas fofas ao som do último êxito dos Coldplay, para depois as perseguir para todo o sempre. E consta que há uma ou duas vítimas que ficam com síndroma de Estocolmo (afeição pelo agressor). É ver o caso de Ronaldo que já foi entrevistado para cima de dez vezes.



escrito por Joan@ às 00:52
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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

"As minhas férias" é, oficialmente, o segundo tema de composição mais pedido pelas professoras primárias, logo a seguir a "A Primavera". Ao longo da minha vida já fiz milhares dessas redacções... Normalmente eram feitas na ressaca das férias grandes, depois de 3 infindáveis meses de alegria para uns e desespero para outros (como eu). Três meses era tempo demais. Eram dias a mais. Calor a mais. Areia a mais no fato-de-banho. Família a mais. Numa casa alugada com bibelots a mais. E um sofá de cabedal. Quente demais. Tudo aquilo era isso mesmo: a mais. Um excedente desnecessário, inútil. Férias para quê? Para descansar da escola?! Eu passava um ano lectivo inteiro a descansar. Há lá coisa mais relaxante que fazer pisa-papeis em barro, ditados, provas de estudo do meio ou jogos de futebol-aranha?! Cada ano que passava era um feriado gigante. E depois as férias grandes, um castigo. Sem os amigos em Lisboa, sem nada de novo para fazer, sentia-me uma presidiária a contar os dias para o regresso à vida. Estava numa Twilight Zone, ali no eixo Linda-a-Velha/Lagoa/Meia-Praia, à espera. Eu que sempre odiei esperar, passava 90 dias à espera que a espera acabasse.

Agora que as férias são realmente úteis, revestem-se de novo encanto. Agora dou por mim, naqueles finais de dias de trabalho em que já não consigo articular meia frase com sentido, a desejar três meses inteiros de férias. Sem precisar sequer daqueles livros de "actividades para o Verão" para me entreter.

As composições sobre as minhas férias saíam sempre desinteressantes. Apetecia-me falar do que aí vinha, do ano novo, dos planos que tinha feito ao mesmo tempo que construía castelos dignos do Rei dos Gnomos, à beira mar, e obrigavam-me a ficar ali, encalhada uma vez mais nas férias que já tinham acabado.

O que está para vir é sempre muito melhor do que o que já foi. Porque ainda pode ser tudo, ainda tem todas as hipóteses. A noite de 24 de Dezembro é muito melhor do que a de 25: ainda não sabemos o que está dentro daqueles embrulhos... No dia seguinte, os embrulhos já são material de reciclagem e os presentes já são passado. Afinal não eram nada de especial, eram parecidos com o do ano anterior. Mas muito piores que os do ano seguinte. Porque o ano seguinte é que vai ser!

Por isso hoje falo das minhas férias antes que elas comecem. Antes que ganhem vida e se tornem incontroláveis. Neste momento elas afiguram-se-me como as melhores férias de todas. Porque ainda não se esgotaram.

Esta composição sobre as minhas férias continua a ser tão desinteressante como as suas antecessoras. Mas desta vez escrevo-a com alegria. Com aquela alegria de quem vai embora, que vendo bem é parecida com a alegria de quem voltava à sala da primária.

 

 



escrito por Joan@ às 18:52
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Terça-feira, 9 de Março de 2010

Consta que na véspera do meu nascimento, a minha mãe viu a "Febre de Sábado à Noite" na televisão. Adorava que isto fosse um boato infundado que eu pudesse agora desmentir, mas parece que é mesmo verdade... Portanto a primeira personagem televisiva com que me relacionei foi o Tony Manero (empregado numa loja de tintas de dia, rei da dança de noite). Conta-se que a cesariana terminou comigo a dançar ao melhor estilo John Travolta. Esta parte felizmente já é mito urbano (até porque aqueles movimentos rápidos, feitos por um bébé ainda cheio de placenta, eram capazes de sujar muita coisa!).

A partir do dia 3 de Janeiro de 1986, a televisão esteve sempre lá. Ou melhor, eu estive sempre onde havia uma televisão. Lembro-me que não havia nada mais glorioso do que estar no meu bacio, de olhos fixos na TV. Que luxo, não ter de interromper qualquer visionamento para ir à casa da banho, fazer "o meu chichizinho" imortalizado por João Baião, anos depois, no "Big Show Sic".  Ficar doente era sempre uma alegria, porque era sinónimo de ter uma televisão emprestada no meu quarto, e entre medições de febre e antibióticos, poder consumir doses maciças de "Denver, The Last Dinosaur" ou dos "Gladiadores Americanos" (isto com alguns anos de distância, mas a alegria era a mesma).

Se não houvesse televisão, não teria tido direito a um comovente momento de amor fraterno, quando o meu irmão ligou para a RTP para defender os meus direitos, exigindo-lhes que passassem o "Babar", como prometido na programação. Sem televisão, podíamos esquecer os piqueniques em família, na sala, aos domingos, a ver o "Palavra Puxa Palavra". Há famílias que vão fazer merendas em Monsanto, a minha ia comer ovos quentes para a frente do António Sala. E bem agradável que era. No Verão, trocávamo-lo pelo Eládio Clímaco, enquanto tínhamos os pés dentro de alguidares de água fria e víamos os Jogos Sem Fronteiras. Quando chegava o Natal desligávamos a televisão, é certo. Mas apenas para brindar a família com uma performance dos irmãos Marx (trocadilho parvo com Marques), claramente inspirada nos programas do Herman José.

Nessa altura, a maior relíquia que guardava no meu quarto era uma televisão portátil, com uma antena tipo telefonia, que tinha saído na revista da Proteste e que o meu avô me deu, mal sabendo o tesouro que ali estava. E como foi útil nos meus castigos! Sempre que incorria nalguma asneira, coisa que acontecia com regularidade - já se sabe como é, os maus exemplos da televisão! - a pena era ficar sem televisão. E lá ia eu, orientando a pequena antena da TV portátil na direcção da janela, na esperança de perceber alguma coisa do que se estava a dizer no "Não Se Esqueça da Escova de Dentes" da Teresa Guilherme. Porque no dia seguinte, na turma da 4ª classe, todos iam falar do concorrente que apareceu nu. E saliento que aqui não era de todo a nudez masculina que me interessava, mas sim o perigo de poder perder um evento televisivo. Quando chegava ao intervalo, a televisão continuava pelo recreio, quando brincávamos ao "Chuva de Estrelas" (felizmente sem José Nuno Martins), ao "Juego de La Oca", uma tendência muito moderna, vinda da nova TVI, ao "Furor" e às "Marés Vivas"  - o escorrega era a torre de controlo.

E havia lá melhor coisa do que chegar a casa ao som do genérico da Rua Sésamo. E ficar ali no sofá vendo os desenhos animados da Vera Roquete. E o orgulho incontido que foi quando ela afixou na sua parede o desenho que eu tinha enviado, um Tom Sawyer com um traço inconfundível? Memorável.

E não se pense que isto é um daqueles fenómenos que passa com a idade. Estamos a falar de uma doença complexa, não de uma mera enurese! Felizmente nunca afectou o meu rendimento escolar, porque lá fui conseguindo fazer um trabalho de português baseado no "Juiz Decide", e outro no "Sofá Vermelho", mais um de História imitando José Hermano Saraiva e os seus "Horizontes da Memória."  As noitadas de estudo, essas, eram passadas na companhia de um bom "Nunca Digas Adeus", com Lídia Franco a fazer de actriz de novela mexicana.  É verdade que não fiz a "quarta classe antiga" que muitos gabam, confesso que não sei estações de comboio e apeadeiros de cor, mas consigo reproduzir cenas de produtos televisivos tão ilustres como "Farmácia de Serviço" (uma coisa dobrada em espanhol), "Trapos e Companhia" (sobre o fascinante mundo das costureiras), "Carrossel" (novela venezuelana com um branco rico e um pretinho pobre), "Dá-lhe Gás" (os primórdios de Jorge Gabriel) ou o "Médico de Família", um appointment viewing no verdadeiro sentido do termo. Mesmo que alguém falecesse numa terça-feira à noite, eu não ia ao funeral sem ver a mais recente discussão da Lucinda com o avô Zé.

Por sorte, a minha passagem pela Universidade não se transformou num enorme "Doutores e Engenheiros", com Nuno Graciano gritando a plenos pulmões "miséria!", até porque não me desloquei muitas vezes à faculdade. Era difícil saír a meio de um "Olá Portugal" ou de um "SIC 10 Horas", deixando para trás Manuel Luís Goucha ou Fátima Lopes para ir assistir às prelecções de Maria Augusta Babo sobre o palimpsesto. Temos de reconhecer que não pode competir com a espectacularidade de uma tertúlia cor-de-rosa ou conversas de quintal.

Há uma preocupação generalizada com o futuro das nossas crianças, que já não brincam na rua e só vêem televisão. Eu sinto uma preocupação particular com o passado dos nossos adultos, que andavam a tocar às campainhas e a correr pela rua fora, em vez de estarem a ver "Os Principais", com o Humberto Bernardo.

Se não houvesse televisão eu além de profundamente triste, era hoje desempregada.

E o pior é que enquanto estivesse em casa à espera de um telefonema do centro de emprego e a comer bolachas com pepitas de chocolate (é assim que imagino o desemprego) não ia poder ver televisão!


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escrito por Joan@ às 08:50
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

 

 

 

À entrada das primeiras 24 horas com 24 anos, até que estou a gostar disto. E porquê? Por várias (24) ordens de razões.

 

1 - Tenho uma Wii! (weee!)

 

 

2 - Tenho uns ténis novos, o que me garante umas belas dúzias de horas a andar como se caminhasse sobre a lua - aquela sensação dos ténis acabados de estrear.

 

 

 

3 - Tenho mais uma data de artigos dignos de enxoval, o que me leva a crer quem em 2010 as indirectas da minha mãe sobre o meu abandono do lar se tornarão progressivamente mais directas que qualquer sufrágio no PSD.

 

4 - Tenho uma lancheira nova, eu que prezo tanto esse ritual quotidiano de preparação e transporte do meu almoço. (não há momento melhor para reflexão do que quando damos por nós às duas da manhã a grelhar frango para o dia seguinte)

 

Sei que por esta altura já estão a pensar "que materialista!" - mas eu também tenho direito aos meus momentos "pipoca mais doce" (sem a parte dos sapatos de salto alto, do Benfica e de me referir ao meu namorado como "o meu homem"). Ainda assim tenho alguns apontamentos menos superficiais para partilhar:

 

5 - Fiz o "aquecimento" para a grande efeméride nos 87 anos da minha avó, ouvindo-a contar histórias que já ouvi para cima de 87 vezes, sobre os tempos em que vivia num hotel e tinha um imediato (sempre adorei esta designação) que tomava conta dela.

 

6 - Passei a meia-noite como há muito tempo não acontecia: entre amigas. A ver um filme hediondo chamado "The Woman" (o que, pensando bem, me aproxima ainda mais da "pipoca mais doce", medo!), trazido de um dos últimos clubes de vídeo da cidade (e quiçá do mundo) perpetuando uma tradição muito nossa: pagar para ver os piores filmes de que há memória. 

 

7 - Recebi um mail do Sri Lanka e outro de São Tomé, e cada um no seu género me deu muita vontade de rir. (também recebi alguns de Carnaxide ou Linda-a-Velha, mas não causam tanto frisson).  

 

8 -  Recebi um presente by air mail (na verdade foi mail apenas) em directo de New York, o que me fez lembrar 1) a sorte que tenho, 2) que em breve compro o bilhete de avião.

 

9 - Tenho uma família que, não sendo exemplar, é um belo exemplo de insanidade saudável, a começar na camisa de flanela que o meu pai usa para "andar por casa" e a acabar na brutalidade meiga (tough love, há quem lhe chame assim) da minha mãe.

 

10 - Tenho uma amiga/irmã/esposa de longa data, que vem cá anualmente, pensa ela que para almoçar. Na verdade vem actuar, com uma performance cómica ao longo de todo o almoço, e como julga que é uma mera convidada, não lhe damos cachet. Pagamos em cajus. E ela gosta.

 

11 - Tenho amigos que todos os anos me surpreendem pela forma como me dão os parabéns (nota: falta só um aviãozinho a sobrevoar uma praia do Algarve, mesmo que eu não esteja lá para ver), e também aqueles que se mantêm fieis a si próprios esquecendo-se de forma gloriosa!

 

12 - Passei o dia com a televisão desligada, coisa inédita para tão grande aficcionada do Goucha, a praticar esse desporto ancestral e em vias de extinção que é a conversa amena.

 

13 - Hoje foi domingo e eu não reparei. Hoje estava um céu cinzento e carregado e não me importei. Hoje estou com uma constipação de caixão à cova e não fiquei de cama.

 

14 - Abandonei um 2009 cheio de projectos encerrados (um livro, uma árvore - ok, na verdade é um cacto, mas tem sobrevivido heroicamente - e felizmente nada de filhos), chego a 2010 com uma data de projectos por abrir. O que por um lado é uma canseira, mas por outro é um desafio (são sinónimos, no fundo, nas versões pessimista e optimista, sejamos claros).

 

15 - Começo 2010 com mais amigos do que tinha em 2009. E neste cálculo não me refiro a nenhum indivíduo alcoolizado com o qual tenha encetado uma bonita amizade na noite de reveillon.

 

16 - Tenho a certeza que vou cumprir cada uma das doze resoluções de ano novo.

 

17 - Tenho programadas sessões intensivas de Brothers and Sisters com a minha mãe, na sala, e sessões individualizadas de personal viewing de How I Met Your Mother, no recato do meu quarto.

 

18 - Tenho uma data de livros novos para ler. A começar no Bolaño e a acabar na grande antologia dos 50 anos da Rua Sésamo.

 

19 - Tenho uma agenda em branco, pronta a ser preenchida.

 

20 - Acabei o dia a comer o primeiro sushi de 2010, incluindo um maki de caranguejo. Só pode dar boa sorte (é tão legítimo acreditar nisto como na história das cuecas azuis, e sempre sabe melhor!).

 

21 - Tenho um amor maior que eu. E não vou acrescentar o "literalmente" porque a piada já é batida... (era aqui que a "pipoca mais doce" atacaria com "o meu homem". Não vou fazê-lo).  

 

22 - Estou a ouvir um recém-sacado CD dos Jackson Five (dos tempos em que o Michael Jackson ainda tinha a cor de origem e fazia boa música): "Don't blame it on sunshine / Don't blame it on moonlight / Don't blame it on good times / Blame it on the boogie"

 

23 - Ainda não tenho sintomas de artrite reumatóide, até ver. Mas a aparecer, as primeiras dores serão certamente nos dedinhos, derivado a teclar.

 

24 - Pela primeira vez, desde que me lembro, não chego ao fim de dia 3 de Janeiro absolutamente deprimida, pela antevisão de 360 dias desprovidos de festividades dignas desse nome (todas as que não são dedicadas ou ao menino Jesus ou à menina Joana). Acho que finalmente percebi que mais importantes que os dias que são especiais à partida, por decreto e registo civil, são os dias banais, que precisam de alguma iniciativa nossa para os tornar verdadeiramente surpreendentes. Demorei 24 anos mas cheguei lá. Ainda hoje o meu irmão me acusava de défice de inteligência, por ser incapaz de o acompanhar em jogos de estratégia. Tem alguma razão. Não dou para jogar ao Risco como não dou para me preocupar com outras 24 coisas negativas que podiam estar aqui em vez destas. Eu sou mais de coisas imediatas. E assim voltamos ao princípio: já vos contei que tenho uma Wii, daquelas que dão para jogar ping pong com uma bola invisível, como se na verdade só tivessemos 4 anos? Já? Óptimo.

 

 

 


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escrito por Joan@ às 02:28
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No dia 2 de Janeiro a minha avó faz anos. Para nós, são 87. Para ela são "três para os 90".

 

Ela vem sempre antes de mim. Nasceu um dia (e sessenta e tal anos) antes de mim. Gosto sempre mais do dia 2 do que do 3, porque a minha festa ainda está para vir. Estamos só a dar o mote. Ainda não há o cheiro a velas apagadas por um ano inteiro, ainda não há os convidados a saírem quando nos apetecia conversar mais, ainda não há o resto do bolo , desfeito em migalhas, que vai acabar no lixo depois de um exílio no friogrífico.

Andamos ao contrário mas cruzamo-nos sempre. E paramos para tomar "o chá das cinco". Uma tradição que prometo não deixar cair em desuso. Porque nalgum dia do ano tem que se dar uso ao serviço de chá inglês, e ao açucareiro de "casquinha" (seja lá o que for esse material!).

Os meus pais sempre me disseram para ter cuidado com as companhias, com os amigos mais velhos, mas o que hei-de fazer? A minha melhor amiga tem mesmo mais 63 anos que eu. E está sempre lá para me dizer que tudo o que eu faço é bem feito. Porque há pessoas das quais não queremos a verdade rigorosa e científica, mas apenas o amor incondicional e tendencioso. Está sempre lá para se rir de todas as minhas piadas, com vontade genuína. Ouvia o programa de rádio ao domingo de manhã, vê o programa de televisão às nove da noite, mesmo quando tem coisas a queimar ao lume, leu de fio a pavio o meu livro sobre adeptos de futebol, perguntando-me a páginas tantas "quem é esta senhora?" perante um boneco do João Vieira Pinto...

Esta minha amiga, ontem, "escangalhou-me" (on her own words) o telemóvel. Tropeçou no fio quando ele estava a carregar, e deu cabo dele (que também já não ia para novo). Depois, ficou muito "ralada" com o sucedido, dizendo todo o tipo de asneiras que fazem parte do seu léxico: "merde treze" (não me perguntem porquê) e "raios partam o Padre Lino" (não me perguntem de todo porquê). Perante esta "maçada" monumental, ofereceu-se várias vezes para me pagar um telefone novo (sem sucesso, é claro), intenção compreensível, vinda de alguém que, quando peço para me passar a água nos almoços de domingo, me responde "água eu fosse, minha querida". E se lhe pedir uma fatia do cheesecake que comprou por ser o meu preferido (apesar do aniversário ser, ainda, o dela), certamente dirá "cheesecake eu fosse". A verdade é que não é todos os dias que temos gente disposta a materializar-se em comida por nós, gente que diz "ok chefe" a qualquer pedido nosso, gente que nos comprou dezenas de milhares de carteirinhas de cromos ao longo da vida, e que brincou connosco às passagens de modelos, aos ginásios e aos barcos, sempre no mesmo quarto, sempre com o mesmo cenário. Gente que puxa assim pela nossa imaginação não se encontra por aí aos pontapés.

 

Eu hoje passei o dia a receber chamadas e mensagens de gente que não sei quem é, e a lutar com um teclado gelatinoso para conseguir dar resposta a todos os "parabéns". Mas nem por um segundo consegui chatear-me com a D. Maria Estela Baptista. Nem uma pequena praga lhe roguei. É impossível. Restou-me encomendar um telemóvel novo e sorrir, abanando a cabeça como quem diz outra frase típica dela: "isto só visto, que contado não tem graça".

 


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escrito por Joan@ às 01:18
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