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Monstro Bolero

Monstro Bolero

03
Mai11

Batimentos Por Minuto #4

Joan@

Estou prestes a começar a escrever a próxima crónica para a revista do The Place e e lembrei-me (que é como quem diz "resolvi adiar a angústia da página em branco") de publicar aqui a do último trimestre, já bafienta e desactualizada, que são sempre bons atributos para uma crónica.

 

Lyonce, Mourinho, Tiago e Dakar (qual destes não é nome de pessoa?)

 

Há quem diga que o futebol são 11 homens de cada lado a correr atrás duma bola. Nada mais redutor e, diria mesmo, falso! Futebol é tudo o resto: os árbitros, os adeptos, as amantes dos jogadores, as mulheres legítimas dos jogadores e os nomes que elas dão às crianças dos jogadores. Pois é, Yannick Djaló foi pai, aoo que parece, de uma menina. Mas o nome Lyonce Viiktórya deixa dúvidas. Fico a pensar “será um pássaro? Será um avião? Será uma nave espacial? Será uma espécie endémica?”.

Enquanto isto, na Europa civilizada atribuem-se prémios. José Mourinho arrecadou a Bola de Ouro e, simultaneamente, a admiração de milhares de compatriotas, por ter cometido a proeza de... falar em português. É natural o espanto, realmente há muitos anos que não o ouvíamos expressar-se na língua de Camões. Ouvimo-lo falar uma espécie de inglês, uma espécie de italiano e agora uma espécie de espanhol. Sempre com accent setubalense. José Mourinho é um poliglota especial: sabe dizer choco frito em todas as línguas do Mundo. The Special One, em termos linguísticos, safava-se perfeitamente se vivesse na Torre de Babel. Só ia haver problemas nas reuniões de condomínio. É que, seja em que idioma for, já se viu que Mourinho não gosta que lhe pisem os calos. Agora o próximo passo é conseguir pôr o Jorge Jesus falar português. As dificuldades de expressão do treinador são tantas que no último jogo do Benfica com o Nacional, Jesus precisou de recorrer à linguagem gestual para expressar a sua admiração por Luís Alberto. Expressou-a em cheio no estômago.

Ficámos recentemente a saber que Tiago (ainda se lembram dele?) renunciou à selecção nacional. Esta tradição que se instalou entre os jogadores portugueses é, quanto a mim, um sinal de boa educação. Eles estão todos a fazer cerimónia. Sabem quando nos oferecem uma coisa muito boa e nós, educadamente, recusamos? Estendem-nos aquela última fatia de toucinho do céu e nós fingimos que não queremos. Ao contrário dos garganeiros do anúncio do Mon Cherie, que se digladiam pelo último bombom. No futebol, como na vida, é assim. Há os Tiagos e os Simões que preferem deixar a última fatia de descrédito com o equipamento das quinas para os outros, e há os gulosos, tipo Fábio Coentrão ou Eduardo, que até se oferecem para ser apanha-bolas se for caso disso. Uns mal-educados é o que é. No meio é que está a virtude, ou neste caso o Cristiano Ronaldo, que aceita ir mas não joga. No fundo, recuperando a metáfora gastronómica, Ronaldo aceita o toucinho do céu mas mete no bolso e leva para casa. E acaba por ser a sua mãe Dolores a deitá-la fora, quando vai pôr o casaco a lavar na máquina. Perde-se um doce conventual, neste caso, e perdem-se jogos para a qualificação, no outro.

Para superar a crise de confiança nacional devíamos dar mais atenção a outros desportos. Por que não festejar efusivamente a melhor classificação de sempre dum português no Dakar? Mesmo que nunca tenhamos ouvido falar de Hélder Rodrigues e pensássemos, até há pouco tempo, que Dakar era um stand de automóveis ali ao pé da João XXI. Aliás, a ignorância nunca foi um entrave para as comemorações lusas. Ou acham mesmo que alguém sabe quem são os Capitães de Abril, quando se fica em casa a aproveitar o feriado? Sei de muito boa gente que pensa que eram jogadores do Benfica, na época em que o Sporting tinha os Cinco Violinos...

 

 

(A ilustração é do Ricardo Galvão). 

 

Agora sim, vou só passar uma roupa a ferro (aprender primeiro, que não sei bem como se faz), tomar um café (mesmo não gostando), fazer um zapping, apreciar a paisagem no terraço, ler os jornais do dia (só as "gordas", que é como quem diz "as notícias sobre o Peso Pesado), ler com pormenor os últimos 320 posts do Facebook e depois então escrever a próxima crónica.

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